Por Marli Gonçalves*
Me peguei envolvida, admito que com certo atraso, em uma série espanhola da Netflix, “Machos Alfa”, que começou em 2022 e agora já está na quinta temporada. Tendo de correr contra o tempo pra ver e chegar aos dias atuais tenho me divertido muito com os casos, aventuras e desilusões dos quatro amigos neste, enfim, debate sobre o feminismo com o qual convivem entre dúvidas, atritos e apoio.
Uma espécie, sei lá, de “Sex and City” que trazia as aventuras das quatro amigas chiques por Nova York, por sua vez “Machos Alfa” se passa em Barcelona e desenvolve um roteiro interessante que mistura amizade, compreensão, choques e descobertas de quatro homens em um processo de atrapalhada desconstrução da masculinidade tóxica que identificaram.
Nesse tempo que vem se desenrolando desde a primeira temporada (ainda não cheguei à mais recente), já os vi pirando, se perdendo, negando e compreendendo, discutindo o feminismo que em vários momentos de rendição concluem que é bem importante seu entendimento para os homens também. Achei legal por ser o propósito do meu livro “Feminismo no Cotidiano: bom para mulheres e para homens também”, como consta já no título.
Os amigos são leais entre si, amizade antiga, cada qual com suas encrencas, todos na chamada meia idade. Já são interessantes suas descobertas e revelações nas conversas e troca de opiniões. Ponto para quem tem curiosidade sobre o que homens conversam. Luis, casado, com dois filhos e uma esposa até irrequieta com essa coisa de desconstrução; Santi, separado, sempre em crise com a ex-mulher e na convivência com a esperta filha adolescente já representando novos pensamentos e comportamento de sua geração, quase um fiscal da toxicidade dos amigos; Pedro, bonitão, executivo de tevê que se vê desempregado para dar espaço a uma mulher, e depois seguidamente encontrando outras emponderadas pelo seu caminho, apaixonado por uma influencer; o último, Raúl, romântico, mas o mais machão, machista, tentando ser hétero à toda prova, e que à essa altura onde estou na quarta temporada já se deixa seduzir por outro “hétero” em folguedos sexuais.
Os quatro lidam com suas inseguranças em todos os tipos de embates e dificuldades nas relações, como paixão, paternidade, sexualidade, liberdade, traições, assédio e, especialmente, muitos encontros no caminho com mulheres alfa determinadas e suas propostas de liberdade sexual, relacionamentos abertos, educação, casamento e geração (ou não) de filhos. As temporadas acompanham e denunciam as barbaridades dos grupos de red pills, incels, discursos de ódio e violência contra as mulheres.
Tudo isso com muito humor e irreverência no roteiro e diálogos faz o sucesso da série criada por dois irmãos, Alberto e Laura Caballero, que já noticia uma sexta e última temporada para breve, demonstrando que o tema está cada dia mais forte. Diria que é uma série boa especialmente para homens, mas para mulheres também, e que nela aparecem orgulhosamente defendendo com unhas e dentes suas teses, vontades e como lidamos com esses tempos quando também estamos sendo obrigadas a desconstruir nossa própria alegada fragilidade e preconceitos.
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MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
