Profissionais da saúde, segurança pública e assistência social se reuniram, em suma, para trocar experiências sobre estratégias de enfrentamento à violência de gênero
O Hospital Estadual Mário Covas (HEMC), em Santo André, celebrou o Dia do Assistente Social, em primeiro lugar, com o 4º Encontro do Serviço Social.
A data, 15 de maio, marca a regulamentação da profissão no Brasil, em 1962.
Foi escolhida, acima de tudo, para reunir especialistas de diferentes áreas em torno de um tema urgente: “Violência contra a mulher e estratégias de enfrentamento”.
O evento, no anfiteatro, ocorreu, além disso, em parceria com o Vem Maria.
Trata-se de serviço de atendimento à mulher em situação de violência de Santo André.
Teve ainda palestras, debates e um momento dedicado à troca de experiências entre os participantes.
Outro marco da profissão em 2026 são as comemorações de 90 anos desde a primeira escola de Serviço Social, na PUC de São Paulo.
Relevância ressaltada por Murilo Dib
A programação teve início, em suma, com as palavras do diretor-geral do hospital, Dr. Murilo Dib.
Ele fez questão de parabenizar, da mesma forma, os organizadores e ressaltar a relevância do assunto escolhido: a violência contra a mulher.
“O tema é muito relevante, muito importante ser discutido, apesar dos grandes avanços que já existem, pois ainda é um problema social muito grande”, afirmou, em resumo.
O diretor também revelou, por exemplo, um vínculo pessoal com a profissão: sua mãe é assistente social.
“Tenho muito orgulho e carinho”, disse.
Ao concluir sua fala, reforçou, portanto, o papel insubstituível da categoria dentro da saúde.
“Quando a gente fala de saúde do ser humano, saúde individual, saúde coletiva, não tem como não falar de conexão social e acolhimento. E quem faz isso tão bem quanto os assistentes sociais? Esse trabalho é fundamental e importantíssimo para a saúde das pessoas”, assinalou.
Papel dos assistentes sociais
Viviane Adorno, supervisora do Serviço Social do HEMC, explicou, além disso, o papel dos assistentes sociais dentro do ambiente hospitalar.
Destacou tratar-se, em suma, de um espaço que vai muito além do tratamento clínico.
Ela lembrou que o adoecimento frequentemente expõe fragilidades emocionais, familiares e sociais que precisam de atenção dedicada e qualificada.
“O assistente social atua justamente nas fragilidades sociais e familiares que emergem durante a internação, o tratamento e a reabilitação”, explicou.
Na sua visão, esse profissional funciona como um interlocutor privilegiado.
Faz, por exemplo, a ponte entre o paciente, a família e a equipe multiprofissional.
Sempre ajudando a identificar fatores sociais que, muitas vezes, de forma silenciosa, comprometem a adesão ao tratamento e a continuidade do cuidado.
Viviane lembrou que, por ser uma unidade de alta complexidade, o HEMC lida frequentemente com situações que envolvem reabilitação de longa duração, risco de sequelas permanentes e necessidade intensa de articulação com a rede socioassistencial. “O trabalho envolve a construção de estratégias junto à rede de apoio, à atenção primária em saúde e aos serviços de assistência social, garantindo uma transição segura do cuidado, centrada nas necessidades do indivíduo e de sua família”, disse.
Delegacia da Mulher
A primeira convidada foi Marisa Silva, investigadora-chefe da Delegacia de Defesa da Mulher de Santo André, com 14 anos de atuação em segurança pública, sendo os últimos oito dedicados exclusivamente à defesa das mulheres. Ela começou sua fala reconhecendo a desconfiança que parte da população carrega em relação à polícia, mas foi direta ao dizer que veio justamente para mostrar “o outro lado”. “Posso afirmar para vocês que a nossa delegacia tem muito trabalho sério sendo feito por lá, muita mulher sendo ajudada”, afirmou.
Marisa detalhou o caminho que uma vítima percorre ao chegar à delegacia, explicando as etapas do registro de ocorrência, a importância da coleta de provas, os pedidos de medida protetiva e o processo criminal que se inicia a partir do boletim de ocorrência. “O boletim de ocorrência é só o começo de uma longa jornada que ela não está preparada para enfrentar”, disse.
Ciclo da violência
Um dos pontos mais marcantes de sua fala foi o alerta sobre o ciclo da violência, que leva muitas mulheres a retornar ao agressor mesmo após buscar ajuda.
“Todos os dias recebemos na delegacia mulheres querendo retirar o boletim de ocorrência”, revelou. “Ela foi criada para acreditar no casamento, acreditar na família, acreditar que é possível viver feliz, que foi só uma fase”.
Durante a palestra, Marisa também abordou as demandas operacionais da delegacia, incluindo operações mensais de combate à violência e cumprimento semanal de mandados de busca e apreensão. Nesse ponto, veio uma das revelações mais surpreendentes da tarde: em uma das operações recentes, entre os objetos apreendidos estava um bastão de beisebol com arame farpado na ponta, arma que ficou conhecida do grande público por aparecer na série de TV “The Walking Dead”. O achado, que pareceria roteiro de ficção, é parte da realidade enfrentada pela equipe da delegacia e ilustra, de maneira bastante concreta, o nível de periculosidade presente em alguns casos de violência doméstica.
Vem Maria
Para encerrar o ciclo de palestras, Solange Fernandes Ferreira, psicóloga e coordenadora do Vem Maria, serviço de atendimento à mulher em situação de violência de Santo André, trouxe uma perspectiva mais ampla sobre o tema, contextualizando a violência de gênero dentro de uma estrutura social e histórica. Logo no início, ela homenageou as colegas assistentes sociais presentes: “Como é bom trabalhar ao lado de assistentes sociais na defesa da democracia”.
Solange explicou que o Vem Maria existe desde 1998, antes mesmo da Lei Maria da Penha, e está inserido dentro do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), na chamada média complexidade. O serviço atende toda a cidade de Santo André, independentemente de território, e funciona por 12 horas ininterruptas, incluindo horário noturno, até as 20 horas. “Quando toca lá o nosso interfone às 7 horas da noite e é uma mulher chegando para ser atendida, isso faz a diferença”, afirmou. Desde 2025, o equipamento também conta com plantão da Defensoria Pública às terças-feiras, ampliando o acesso à assistência jurídica para as mulheres atendidas.
Grupos mais vulneráveis
A psicóloga abordou, da mesma forma, conceitos como patriarcado e interseccionalidade.
Isso para mostrar por que serviços especializados são necessários, e trouxe dados sobre os grupos mais vulneráveis à violência de gênero.
Segundo ela, entre os 1.492 casos de feminicídio registrados em 2024, 63,6% das vítimas eram mulheres negras.
“Não dá para fazer essa conversa sem falar de racismo também”, lembrou.
Solange ressaltou, ainda, que o Vem Maria atende mulheres cis e trans, idosas e adolescentes.
E acrescentou, da mesma forma, que a equipe, composta em grande parte por assistentes sociais, muitas vezes estende o trabalho muito além do horário oficial.
Ao final, o encontro abriu espaço para debate, com perguntas e reflexões entre os participantes, com a contribuição das palestrantes Marisa e Solange, e mediação da Dra. Kelly Pico, gestora dos ambulatórios do HEMC.
A tarde reforçou que o enfrentamento à violência contra a mulher é, antes de tudo, um esforço coletivo.
Ele passa pelo acolhimento, pela escuta qualificada, pela articulação entre serviços e pelo compromisso diário de profissionais de diferentes áreas trabalhando em conjunto, em conclusão, com um mesmo objetivo.
