Produtor cultural alerta que eventos LGBT estão sofrendo perdas operacionais por falta de patrocínio de empresas que se declaram diversas
Coordenador artístico da maior Parada do Orgulho LGBT do mundo, que acontece em São Paulo e realizador de outros eventos e ações solidárias à causa LGBT durante o ano, Heitor Werneck está descontente com a falta de apoio e patrocínio crescente por parte das empresas que se promovem como diversas.
“Há empresas, inclusive no ramo de cosmética, que sustentam uma narrativa de diversidade, mas não apoiam a Parada nem outros projetos ao longo do ano, e muitas vezes nem têm diversidade dentro das próprias estruturas”, critica.
Nos últimos anos, esse cenário tem sido acompanhado por uma mudança mais ampla no ambiente corporativo e digital. Grandes empresas globais vêm reduzindo ou reformulando suas áreas de diversidade e inclusão, enquanto plataformas digitais têm atualizado diretrizes de conteúdo que impactam diretamente a visibilidade de pautas LGBTQIA+. Também têm sido frequentes relatos de derrubadas de perfis e restrições de alcance envolvendo criadores de conteúdo da comunidade.
Além disso, debates recentes em torno da identidade de gênero — especialmente sobre mulheres trans — têm ganhado espaço público, muitas vezes marcados por desinformação e polarização, o que contribui para tensionar ainda mais o ambiente social e digital.
“Veja o exemplo da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo: arrecada mais de 500 milhões em impostos em uma só semana, dá visibilidade não só para a causa, mas também para muitos artistas periféricos, atrai turistas do mundo todo, é o evento mais pacífico da cidade, mas esse ano, onde estamos comemorando 30 anos de Parada, o evento terá menos atrações e seis trios elétricos a menos do que nos anos anteriores por falta de patrocínio”, sinaliza Heitor.
Exemplo de empresa
Na contramão desse cenário, Werneck destaca o exemplo da Amstel como uma marca que mantém uma atuação consistente junto à comunidade LGBTQIA+.
Segundo ele, a empresa vai além do patrocínio pontual à Parada nessas últimas 9 edições e investe em ações práticas, como iniciativas de retificação de nome para pessoas trans, celebração de casamentos oficiais feitas durante a Parada e manutenção de equipes diversas dentro da própria estrutura corporativa.
“É um exemplo de empresa que escuta a comunidade e apoia não só a Parada, mas outras ações sociais ao longo do ano”, afirma.
Heitor também vê com preocupação o avanço de movimentos contrários às pautas de diversidade.
“A crescente repressão ao que se convencionou chamar de cultura ‘woke’ é um alerta importante. O movimento LGBT não trouxe visibilidade apenas para a nossa comunidade, mas abriu caminhos para o reconhecimento de outros grupos, como mulheres, negros, pessoas neurodivergentes e pessoas com deficiência. Quando essas pautas passam a ser deslegitimadas, o risco não é só para esses grupos, mas para a própria democracia”, conclui.
Sobre Heitor Werneck
Heitor Werneck é produtor cultural, estilista, precursor do fetichismo no Brasil e idealizador da primeira festa liberal do País, Projeto Luxúria. É coordenador artístico da Parada dp Orgulho LGBT+ de São Paulo e também atua como consultor em séries e filmes da HBO, Netflix, Globo, e, entre as suas principais atividades, realiza ações sociais em prol de membros da comunidade LGBTQIAP+ voltadas para saúde, alimentação e acolhimento em parcerias com ONGs, empresas e órgãos do governo.
