Presidida pela deputada estadual do PSDB, Comissão de Assuntos Metropolitanos tentava ouvir Carlos Piani pela quarta vez, mas a sessão terminou em bate-boca e acusação de machismo contra Gilmaci Santos
Joaquim Alessi
Articulação liderada, em primeiro lugar, pelo deputado Gilmaci Santos (Republicanos), líder do governo Tarcísio de Freitas na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), derrubou a sessão da Comissão de Assuntos Metropolitanos na tarde desta quarta-feira (03.06).
O colegiado colheria, acima de tudo, o depoimento do presidente da Sabesp, Carlos Piani.
Afinal, ele fora convidado a prestar esclarecimentos sobre os sucessivos acidentes operacionais e o reajuste de tarifas após a privatização da companhia.
O que é o mínimo que a população espera de esclarecimentos
Após três tentativas frustradas de convocação, Piani finalmente compareceu ao parlamento paulista.
Mas, em manobra regimental para inviabilizar os trabalhos, a base governista retirou os parlamentares do plenário, impedindo que se atingisse o quórum mínimo de seis deputados para a abertura formal dos trabalhos, na ocasião cinco parlamentares estavam presentes.
Diante do esvaziamento, o presidente da Sabesp deixou o local sem ser interpelado, e o pov de São Paul ficou sem respostas.
Desrespeito de gênero
O encerramento abrupto da sessão evoluiu, além disso, para um bate-boca generalizado.
A presidente da comissão, deputada estadual Ana Carolina Serra (PSDB), apontou para uma oitiva informal do presidente da Sabesp.
No mesmo instante Gilmaci Santos tentou intimidá-la verbalmente para impedir a condução dos trabalhos.
Extrapolou o debate político e descambou para o desrespeito institucional e de gênero dentro do maior parlamento da América Latina.
Em nota, a parlamentar tucana repudiou a postura do líder governista e classificou o episódio como um ataque que ultrapassa as fronteiras ideológicas.
“O que eu vivenciei é, no mínimo, lamentável. Ainda mais no exercício de meu trabalho na Assembleia Legislativa de São Paulo. O que aconteceu é algo que está acima da política. Quando uma mulher é desrespeitada, não é apenas uma pessoa que é atingida, é uma agressão aos valores que a sociedade humana, mundial, vem construindo ao longo de décadas. O que vivenciei na reunião foi a falta de respeito de um homem com uma mulher. E isso é inaceitável”, afirmou, em resumo, Ana Carolina Serra.
A deputada ressaltou a gravidade de o episódio ter ocorrido no ambiente legislativo, que deveria servir de espelho civilizatório para o Estado.
“Nós vivemos em uma sociedade que avançou muito na luta por respeito, igualdade e dignidade. Não existe mais espaço para comportamentos que tentem constranger, intimidar ou desrespeitar uma mulher em qualquer ambiente que ela se encontre. Mas é ainda mais grave quando isso acontece dentro de uma Casa de Leis”, assinalou, da mesma forma.
“Uma afronta”
Na tarde desta quinta-feira, Ana Carolina conversou com a reportagem de ABCD REAL e comentou outros detalhes.
“Na verdade, a questão em si foi o desrespeito ao meu trabalho, enquanto deputada e presidente da comissão. A outra questão sobre trabalhar para não dar quórum nas reuniões eu compreendo perfeitamente a questão do jogo politico. Agora, não deixar eu falar, impedir que eu exerça meu trabalho e tenha a liberdade de conduzir a reunião enquanto presidente e determinar aos gritos, em total destempero,se levantando e gesticulando que o convocado se retire imediatamente – o que por óbvio foi prontamente atendido – foi uma afronta. Um parlamentar com cinco mandatos e que no maior parlamento da América Latina tenta ganhar a questão no grito porque estava em minoria, desrespeitando minha condição de presidente, é algo no mínimo vexatório, não só pelo claro desrespeito a minha pessoa e trabalho, mas também uma afronta à democracia.”
Para a bancada do PSDB, a estratégia do Palácio dos Bandeirantes de blindar o comando da Sabesp privatizada acirra os ânimos na Alesp, transformando uma prerrogativa de fiscalização técnica em um embate pessoal.
“Podemos divergir. Podemos ter posições opostas. Podemos fazer debates duros e defender nossas convicções com firmeza, mas nada, absolutamente nada, justifica ultrapassar os limites do respeito. Esse não é um debate sobre esquerda ou direita, sobre governo ou oposição. Não é sobre quem está certo ou errado na discussão envolvendo a Sabesp. Tenho convicção de que a política precisa dar o exemplo: mais respeito, mais equilíbrio e mais civilidade. É isso que a sociedade espera de todos nós”, disse, em conclusão a presidente da comissão.
A oposição e blocos independentes na Alesp estudam acionar a Mesa Diretora para apurar a conduta do líder do governo durante a sessão.
Nota de repúdio
“A Executiva Estadual do PSDB de São Paulo manifesta repúdio à conduta do deputado estadual Gilmaci Santos (Republicanos-SP) durante reunião da Comissão de Assuntos Metropolitanos e Municipais da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), realizada nessa quarta-feira (3/6).
Com o objetivo de impedir questionamentos ao diretor-presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), Carlos Augusto Leone Piani, sobre as falhas na prestação de serviço de abastecimento hídrico à população paulista, o líder do governo Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) retirou o executivo da audiência, às pressas e ainda de forma indiscutivelmente desrespeitosa com todos os membros do colegiado, que, simplesmente, exerciam, naquele momento, seus respectivos papéis legislativos.
Ao interromper reiteradamente os trabalhos conduzidos pela presidente da Comissão, a deputada estadual Ana Carolina Serra (PSDB), elevar o tom de voz de maneira desrespeitosa e adotar postura incompatível com a liturgia do cargo parlamentar, Gilmaci Santos ultrapassou todos os limites do debate democrático e do respeito institucional que devem nortear a convivência entre os representantes eleitos pela população paulista.
Inaceitável
A violência política de gênero se manifesta justamente quando mulheres são constrangidas, desqualificadas ou desrespeitadas no exercício de suas funções públicas. Não é aceitável que, em pleno século 21, parlamentares mulheres ainda sejam submetidas a comportamentos intimidatórios, misóginos e que buscam enfraquecer a autoridade e a legitimidade na condução dos trabalhos legislativos.
Ana Carolina Serra exerceu, durante todo o episódio, sua prerrogativa regimental de presidir os trabalhos da Comissão, mantendo a serenidade e o compromisso com o bom andamento das atividades parlamentares. O comportamento adotado por Gilmaci Santos afronta não apenas a deputada, mas também a própria Alesp e os princípios de respeito e de civilidade que devem prevalecer no ambiente democrático.
O PSDB São Paulo reafirma sua solidariedade à deputada Ana Carolina Serra. Não haverá Democracia plena no Brasil, enquanto mulheres precisarem enfrentar, além do debate político, atitudes que tentam silenciá-las ou deslegitimá-las no exercício de seus mandatos.
Paulo Serra
Presidente da Executiva Estadual do PSDB de São Paulo”
