Falar ou calar? O dilema na era da polarização

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Clara Laface

Por Clara Laface*

Até que ponto a sua liberdade de expressão pode se transformar em um verdadeiro pesadelo financeiro para a empresa que você lidera? 

Dados recentes mostram que, quando o assunto é política, a conta não fecha: a rejeição vinda dos opositores é brutalmente maior que os aplausos dos aliados. Entender essa assimetria virou sobrevivência estratégica, pois o mercado raramente perdoa o ego de quem está no comando.

Existe uma linha muito tênue entre defender os valores inegociáveis de uma organização e mergulhar de cabeça no pântano das disputas partidárias, que costumam dividir clientes em segundos. Enquanto levantar a bandeira da inovação ou da sustentabilidade gera pontes e fortalece comunidades, colar a sua imagem à de um político específico costuma agir como uma guilhotina na base de consumidores. O verdadeiro teste para a liderança moderna é ter o discernimento afiado de saber quais lutas constroem um legado e quais apenas destroem o valor acionário.

A vulnerabilidade atinge seu ápice naquelas empresas que dependem excessivamente da figura carismática de seu fundador para brilhar na mídia. Quando o CPF e o CNPJ se misturam a esse nível, o público usa o líder como atalho mental, transferindo manchetes diretamente para os balanços corporativos. Num mundo hiperconectado e veloz, até um simples boato não desmentido tem força para arranhar uma credibilidade institucional que foi construída a duras penas.

Isso não significa, porém, que o topo da pirâmide corporativa precise se tornar um lugar de silêncio sepulcral e omissão constante. Ficar quieto diante de crises sistêmicas também cobra seu preço, pois o consumidor contemporâneo exige coerência e pulso firme de quem dita os rumos da economia. O segredo de ouro está na leitura inteligente do território: se você comanda um nicho muito ideológico, arriscar faz parte do jogo; mas, se o seu modelo de negócio depende das grandes massas, alienar metade do mercado é uma aposta irracional.

Para quem desenha uma trajetória de alto impacto, essa dinâmica prova que o ativismo impulsivo e a responsabilidade fiduciária frequentemente colidem em alta velocidade. Um executivo brilhante entende que o seu capital político individual, por mais tentador que seja exibi-lo aos quatro ventos, não pode virar um passivo tóxico para o ecossistema corporativo. É vital gerenciar vaidades, reconhecendo que suas manifestações trazem externalidades pesadas que recaem sobre parceiros, investidores e milhares de colaboradores que dependem inteiramente da estabilidade da marca.

Liderar com excelência exige a maturidade de aceitar que o prestígio da sua cadeira sempre cobrará um pedágio alto sobre as suas convicções pessoais. A verdadeira influência se constrói com a clareza de que os destinos do seu negócio são sempre maiores que as suas preferências na urna.

Sobre Clara Laface

Consultora em posicionamento de marca pessoal, apoia líderes, executivos, empresários e profissionais em fases de crescimento, reposicionamento ou recolocação no mercado.

No ambiente corporativo, atua em comunicação interna e gestão de crise, com foco no alinhamento de mensagens, fortalecimento da cultura e engajamento de equipes. Ministra treinamentos e palestras sobre posicionamento profissional e comunicação. Foi VP de Marketing da AICI Brasil (2022–2024), é colunista do Portal Be News e docente na Comunica Escola de Comunicação e Imagem.

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