Por Clara Laface*
As apostas esportivas deixaram de ser apenas uma questão de finanças pessoais para se tornarem um sério desafio de saúde pública e, cada vez mais, de gestão de pessoas. Dados do SUS mostram que os atendimentos ligados ao vício em jogos saltaram 140% em cinco anos. E se o endividamento costuma ser a face mais visível desse problema, os estragos na rotina e na vida profissional são igualmente devastadores.
Na prática, os primeiros sinais costumam aparecer na queda de rendimento. A mente fixa em palpites, a ansiedade com os prejuízos e a tentativa incessante de recuperar o dinheiro perdido causam um desgaste mental que destrói a concentração e a qualidade das entregas. Em pouco tempo, o impacto ultrapassa o indivíduo e passa a prejudicar o fluxo de trabalho de equipes inteiras, a relação com os clientes e os resultados do negócio.
Conforme a dependência se aprofunda, os reflexos atingem o comportamento interpessoal e a postura ética. Torna-se comum ver profissionais apostando no meio do expediente, pedindo dinheiro emprestado a colegas e tentando esconder o tamanho das dívidas. Dependendo da gravidade, o cenário escala para advertências e demissões por justa causa, transformando um transtorno de saúde na quebra da confiança.
As consequências de um colapso desse tipo costumam ir longe, estendendo-se para além do desligamento da empresa. A credibilidade de um profissional leva anos para ser construída, mas pode ruir num instante quando associada à instabilidade ou à quebra de acordos. Como o mercado corporativo se move por redes de recomendação, recompor a reputação depois disso é um processo árduo e demorado.
Diante disso, o primeiro passo é reconhecer que a compulsão não se supera apenas com força de vontade. É essencial buscar apoio médico e psicológico especializado, impor barreiras para bloquear o acesso às plataformas, reestruturar o orçamento familiar e conversar abertamente com pessoas de confiança. O vício em jogos exige a mesma seriedade e o mesmo tratamento dado a qualquer outra dependência.
As empresas, por sua vez, precisam abandonar a ideia de que o jogo é um assunto estritamente da vida privada do colaborador. Adoção de ações educativas sobre finanças, campanhas de conscientização, capacitação de gestores para notar mudanças bruscas de comportamento e a oferta de canais sigilosos de acolhimento são medidas fundamentais. Elas ajudam a evitar que um problema de saúde termine em demissões traumáticas.
O caminho é equilibrar a responsabilização por eventuais desvios de conduta com a criação de redes reais de apoio. Afinal, cuidar da saúde mental da equipe é também a forma mais inteligente de proteger o maior patrimônio de qualquer organização: as pessoas.
Sobre Clara Laface
Consultora em posicionamento de marca pessoal, apoia líderes, executivos, empresários e profissionais em fases de crescimento, reposicionamento ou recolocação no mercado.
No ambiente corporativo, atua em comunicação interna e gestão de crise, com foco no alinhamento de mensagens, fortalecimento da cultura e engajamento de equipes. Ministra treinamentos e palestras sobre posicionamento profissional e comunicação. Foi VP de Marketing da AICI Brasil (2022–2024), é colunista do Portal Be News e docente na Comunica Escola de Comunicação e Imagem.
