É guerra para confundir? Só pode ser.

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Por Marli Gonçalves*

Quantas frases de autoria desconhecida. Uma delas, a de que “na guerra a primeira vítima é a verdade”, certeira. Em todas as guerras, inclusive as de opinião, que estão impressionantemente ocupando nossas vidas.

Só que agora está cada vez mais visível outra, atribuída ora ao Chacrinha, ora ao Tom Zé, na interpretação da canção “Tô”, de 1976: “Eu não vim para explicar, vim para confundir”. Tem muita gente vivendo disso. Usando isso. Fazendo isso. Forçando isso. Inclusive obrigando que percamos tempos preciosos atrás da tal verdade, mas isso só quem por ela se interesse, número que diminui a todo segundo com os ataques e desprezo à imprensa séria – acreditem, ainda tem gente dedicada ao bom jornalismo. E não está fácil ter coragem, bater a real.

Qualquer “zinho” que ninguém sabe de onde surgiu, de quem nem nunca se tinha ouvido falar, aparece e em busca de cliques inventa notícias, inclusive com uso de inteligência artificial sabotando imagens, para torná-las reais. Outro dia um desses publicou manchete e imagens de Benjamim Netanyahu ferido, garantindo sua morte na terrível guerra que se desenrola no Oriente Médio. Soube disso porque esse post foi levado a um grupo de jornalistas seniores do qual faço parte no WhatsApp, e quem o levou ainda perguntou se procederia o que claramente era uma vergonhosa fake news. A justificativa dada depois da bronca completou a lambança: “mas era um sonho, um desejo”. Tudo fora da ordem, e facilitando que nos próximos meses desse ano eleitoral – e ainda de guerras absurdas – sejamos levados por uma enxurrada.

Conto isso porque a loucura é tanta que estão ocorrendo coisas que a rapidez da informação que a tudo soterra dia após dia, um assunto em cima do outro, vai deixando passar. Esta semana a Câmara Municipal de São Paulo mandou seguir um projeto de troca de um nome de rua, atual Peixoto Gomide, para Sofia Gomide. A rua tem esse nome desde 1914 em homenagem a Francisco de Assis Peixoto Gomide, ex-senador. Em 1906 se suicidou após matar a filha Sofia por não concordar com seu casamento. Para as vereadoras da Bancada Feminista que apresentaram o projeto, provavelmente até de boa-fé, esta mudança serviria “como exemplo de que nossa cidade não tolera mais a violência contra a mulher”. OK. Não é só que não se dê mais homenagens a feminicidas, o que seria- e é – bastante razoável.

Mas desarranjar milhares de pessoas – hospitais, escolas, empresas – com a troca de nome da rua? Desculpem, mas me parece uma bobagem do tamanho de um bonde, como se dizia antigamente. O mundo caindo. A cidade jogada às traças. Corrupção visível destruindo bairros, histórias e memórias. Mulheres sendo mortas todos os dias, das formas mais violentas e motivos fúteis. Atacadas, assediadas, feridas, estupradas, presas em cativeiro, “suicidadas”. Temos muito a lutar e fazer para realmente acabar com isso, mas com medidas sérias, apoio, acolhimento, segurança, Justiça, aplicação real das medidas protetivas, mudanças no Código Penal, educação, controle de crimes nas redes sociais. Mulheres pobres ou em situação de rua, sem qualquer apoio de saúde e higiene, brigando com ratos por falta de absorventes quando menstruadas, hospitais públicos negando a realização de abortos legais. Vereadoras…

Nome de rua? Exemplo de uma guerra perigosa. Da ilusão de sonhos. De que é assim que se avança na luta de bem mais de um século, e ainda com tantas e novas derrotas.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital.  marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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