Mamãe faria 100 anos

In Canto do Joca On
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Na foto, a Lourdes, Dona Ângela (nosso Anjo), a Ana, Nega (Angelina), eu e o João. Sempre celebrado.

Cresci na rua Protocolo.

Talvez por isso tenha tanta repulsa à burocracia.

Protocolo, 227, que jamais teve um despacho oficial.

No pobre bairro de São João Clímaco (hoje mais paupérrimo ainda).

Éramos felizes, mesmo a rua sendo uma travessa da Estrada… das Lágrimas.

Ironia pura.

A rua era de terra. Jogávamos futebol como em um campo de verdade.

Até que um burocrata decidiu que asfalto era progresso…

E tacou piche na rua.

O campo virou quadra de salão.

Uma linha de ônibus invadiu nosso espaço.

Um dia, em meio à pelada, surgiu o coletivo gigante.

A bola ficou entre as rodas.

Implorei ao motorista para que parasse.

Ele assentiu com a cabeça, e lá fui eu, deitado, sob o carro grandão, buscar nosso melhor brinquedo.

Quando estava embaixo, entre as rodas, pegando já a redonda, ouvi um grito lancinante:

“QUIMMMMMMMMMMMMMM!!!!!!”

Era minha mãe, da janela, apavorada com a cena. Eu deitado debaixo do ônibus…

Saí com ar de vitorioso, mas não a acalmei.

Corri, joguei a bola para escanteio no quintal, e me tranquei no banheiro que separava a cozinha do quarto.

Ela batia na porta e mandava abrir. Eu, nem por decreto.

Ela não iria me bater, mas só a bronca assustava.

Essa lembrança me veio à cabeça hoje, 14 de maio de 2020, quando ela completaria 100 anos, se ainda estivesse entre nós.

Um século!

Ela partiu antes do combinado (como diz Rolando Boldrin) em 2009, há 11 anos, aos 89 anos.

Hoje lembrei do filme “Mamãe Faz 100 Anos”, do genial Carlos Saura.

Não tem nada a ver com minha mãe. Nem com minhas irmãs, com meu saudoso irmão já falecido, mas eu lembrei.

Talvez só pelo nome da película, ou até pela irreverência do meu pai.

Quando ela disparava a falar, ele pegava a viola, sentava no degrau da porta da cozinha, e se “danava a rir, o atrevido” (com perdão do Mestre Guarabyra), cantando: “Eu me vingo dela, tocando viola de papo pro ar”.

Era o jeito dele de amar.

Minha mãe chamava Ângela, um Anjo de verdade.

E agora acho que entendendo a lembrança de “Mamãe faz 100 Anos”.

Nunca a chamei de mamãe, mas apenas de mãe.

Certamente por um machismo tolo.

De besta, eu me reprimia (perdão, Alceu).

Hoje, só tenho vontade de dizer:

“Mamãe faria 100 anos”.

E eu morro de saudades.

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