Carta de Trump a Lula fere tradição diplomática americana e expõe disputa por hegemonia global, avalia especialista

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Leonardo Trevisan/Divulgação

A carta enviada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta quarta-feira (09.07), surpreendeu negativamente especialistas em relações internacionais.

O documento comunica a imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos EUA.

Pior, faz menções ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aborda questões envolvendo big techs, em tom considerado atípico e politicamente carregado.

Para Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM, a carta não segue as melhores tradições da diplomacia americana.

“É uma defesa explícita dos interesses de empresas privadas americanas que enfrentam litígios com o Estado brasileiro, especialmente no setor de comunicações”, afirma Trevisan.

E complementa: “Não é comum que o governo de um país se posicione de forma tão direta em favor de interesses corporativos dentro de um documento oficial de política externa.”

Trevisan destaca, além disso, a mistura entre alinhamentos políticos e relações econômicas na mensagem.

Afinidade com Bolsonaro

“A carta deixa evidente uma afinidade entre Trump e Bolsonaro, o que não condiz com a prática diplomática tradicional, que deve preservar institucionalidade, acima de preferências pessoais ou ideológicas”, explica, em suma.

Mas, o que mais chama atenção, segundo o especialista, é o momento em que a carta foi enviada.

O Brasil sediou recentemente a cúpula dos BRICS, na qual houve críticas à hegemonia americana na governança global.

“A reunião deixou claro um movimento — inclusive de países próximos aos Estados Unidos, como a Arábia Saudita — por uma nova estrutura de governança internacional, menos concentrada nos interesses de uma única potência”, explica.

Nesse cenário, Trevisan interpreta a carta como parte de uma resposta política à crescente contestação da liderança americana.

“O Brasil pode estar servindo como bode expiatório”, analisa.

“A punição econômica pode ser lida como reação ao apoio — ainda que indireto — de países como o Brasil à crescente influência da China no cenário internacional”, diz.

Para ele, a mensagem de Trump vai além da relação bilateral.

“A carta tem um destinatário claro: todos os países que defendem uma reforma na governança global. A tarifação é uma forma de advertência a quem contesta o status quo. É preciso entender essa medida como parte de um movimento mais amplo de reafirmação da primazia americana no sistema internacional”, diz, em conclusão.

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