Aqui jazz e os papos subversivos

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Tancredo Neves e o então presidente João Goulart, durante assinatura do convênio com norte-americanos.
  • Guttemberg Guarabyra

“Enquanto isso, no Brasil central, a ditadura militar, que acabava de ser deflagrada, já barbarizava”

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Hoje não se pode mais dizer que os sertões façam parte do ‘Brasil distante’. Com a integração via internet, o Brasil e o mundo estão cada vez mais próximos, restando poucas regiões verdadeiramente remotas de tudo.

Mas quando o sertão da Bahia ainda poderia ser chamado de Brasil distante, eu vivia lá. E só fui ter noção do quanto era realmente remoto anos depois, quando refleti sobre minha convivência com os Voluntários da Paz, enviados pelo governo Kennedy com o objetivo, pelo menos o declarado, de estabelecer laços cordiais com o país.

Havia muitas referências a segundas intenções do grupo americano, trazidos ao Brasil pelo governo João Goulart. Embora jamais tenha presenciado algum ato suspeito por parte de Loreng, Jimmy, Bill ou Paul, o assunto é discutido até hoje.

Quando os Voluntários resolveram erguer casas populares usando maquinário importado, que produzia de forma prática e rápida tijolos de barro umedecido compactado, resolvi ajudá-los.

Chegava do colégio e partia para o terreno próximo ao cemitério para aprender e depois ensinar o manejo do maquinário simples, porém revolucionário, aos nossos próprios voluntários — famílias sem moradia que, em regime de mutirão, construíam as casas para que depois fossem distribuídas entre elas.

Dava gosto vê-las concluídas.

Enquanto isso, no Brasil central, a ditadura militar, que acabava de ser deflagrada, já barbarizava.

À noite, no Bar Samburá, que a intelectualidade esquerdista havia inaugurado, com painéis modernistas pintados nas paredes por Alberto Farah, que havia estudado fora e trazido, junto com a arquitetura, o espírito e o traço vanguardistas de Niemeyer, falávamos baixinho sobre política e ouvíamos nas alturas jazz e bossa-nova.

Durante o dia, meu trabalho na construção das casas em companhia dos estrangeiros suscitava críticas.

Para o garoto que vivia entre esses dois mundos, havia diversas trilhas sonoras. O rádio, em que ouvíamos notícias cada vez mais tristes e preocupantes. E o jazz e a bossa-nova ecoando no bar intelectual.

Além do country americano, Dylan, Baez e tantos outros, trazidos no vinil dos Lps de Paul, o mais pândego e culto dos Voluntários. Hoje seria considerado um nerd.

O jazz, porém (a bossa-nova eu já curtia), que eu acabara de conhecer, é que se fixou em minha memória como marca daquele tempo em que Dave Brubeck, tocado a todo volume no Samburá, abafava nossos papos subversivos.

Música do dia.

  • Guttemberg Nery Guarabyra Filho, ou Guttemberg Guarabyra, ou apenas Guarabyra, nascido em Barra, Vale do São Franscico, Interior da Bahia, cronista de ABCD REAL, músico, compositor, escritor e poeta brasileiro. Entre seus maiores sucessos como compositor estão as canções “Mestre Jonas” e “Outra vez na estrada” (ambas em parceria com Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix), “Casaco Marrom” (com Renato Correa e Danilo Caymmi), “Sobradinho” (com Luiz Carlos Sá) , “Espanhola” (com Flávio Venturini), Dona e muito mais. Escreveu O Outro Lado do Mundo e Teatro dos Esquecidos, além de inúmeras crônicas.

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