Vacina: quando tudo vira disputa política, até o que salva vidas é colocado em xeque

In ABCD, Artigo On
- Updated
Paulo Serra

Paulo Serra*

Vírus não votam. Bactérias não têm partido. Doenças não seguem conceitos. Infelizmente, um dos efeitos mais preocupantes da polarização política é a transformação de temas técnicos e científicos em campos de batalha ideológica. E poucos exemplos ilustram isso tão bem quanto à queda da cobertura vacinal infantil no Brasil.

Dados recentes acendem o alerta nacional: até 7/8, ao menos 24 casos de sarampo foram confirmados no País, a maioria no estado de São Paulo. Na capital paulista, maior cidade brasileira, a cobertura está em torno de 75% – índice baixo, segundo especialistas, já que, somente se consegue prevenir a transmissão com cerca de 95%. Cada ponto percentual representa milhares de crianças desprotegidas.

É claro que tal redução tem várias causas: dificuldades de acesso, mudanças na rotina das famílias e desafios enfrentados pelos serviços de Saúde. Mas seria ingenuidade ignorar outro fator que ganhou força nos últimos anos: a desinformação e a desconfiança em relação às vacinas, alimentadas por um ambiente de radicalização. Evidências científicas passaram a disputar espaço com boatos. Este, talvez, seja um dos maiores prejuízos da polarização: quando tudo vira disputa política, até o que salva vidas passa a ser questionado.

Durante décadas, vacinar uma criança era um ato de cuidado, uma tradição. Pais e mães zelosos levavam seus filhos aos postos porque confiavam na Medicina e no Programa Nacional de Imunizações (PNI) – um dos maiores patrimônios da Saúde Pública brasileira.

Entre 2020 e 2021, na pandemia da
Covid-19, vivemos um dos momentos mais difíceis e tristes da história recente. Só no Brasil, mais de 700 mil vidas foram ceifadas pelo Novo Coronavírus. O País se enlutou e lutou para evitar mais contaminações e mortes. Para tanto, Prefeituras e Estados ergueram hospitais de campanha, ampliaram leitos, adotaram protocolos de prevenção (como o uso de máscaras cirúrgicas) e restrições sanitárias, a fim de proteger a população. Cada ação foi providencial.

Mas foi a imunização em massa que reduziu internações, diminuiu casos graves, salvou milhares de pessoas e permitiu que a sociedade retomasse suas atividades com segurança, dando início ao “novo normal”.

Os antídotos estão entre as maiores conquistas da humanidade. Graças a eles, graves enfermidades foram erradicadas, como a varíola, enquanto poliomielite, sarampo, rubéola e tantas outras passaram a ser controladas em diversas nações.

Em pleno século 21, questionar os imunizantes, sem qualquer fundamento científico, e espalhar inverdades sobre eficácia, significa abrir espaço para o retorno de moléstias que já não faziam parte da realidade desta e de gerações passadas.

Recuperar a confiança na vacinação precisa ser prioridade, sendo esta uma obrigação do poder público. Isso exige campanhas de conscientização, disseminação de informação correta e objetiva sobre o tema, e seriedade no debate público.

O que vemos, hoje, com a queda na imunização da população brasileira, a resistência às vacinas e o negacionismo, é a constatação daquilo que tenho insistido em defender: precisamos de menos radicalização, de menos polarização e de mais responsabilidade.

Quando se coloca em dúvida uma política pública que há décadas salva milhões de vidas, quem paga essa conta é toda a sociedade e, principalmente, nossas crianças — o nosso futuro.

*Paulo Serra é especialista em Gestão Governamental e em Políticas Públicas, pela Escola Paulista de Direito; e em Financiamento de Infraestrutura, Regulação e Gestão de Parcerias Público-Privadas (PPPs), pela Universidade de Harvard (Estados Unidos); cursou Economia, na Universidade de São Paulo (USP); é graduado em Direito, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo-SP; professor universitário no curso de Direito, também é vice-presidente da Executiva Nacional do PSDB, presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo, e vice-presidente da Federação PSDB-Cidadania paulista; foi prefeito de Santo André-SP, de 2017 a 2024.

You may also read!

Atrium Shopping reúne show cover do Queen, carros antigos e atrações gratuitas neste fim de semana

Programação de 26 e 27 de setembro inclui, em primeiro lugar, música, encontro automotivo, patinação e a abertura da

Read More...

Mauá encerra setembro com novo pacote de obras, investimentos e entregas nos bairros

Agenda do prefeito Marcelo Oliveira reúne, em primeiro lugar, revitalização de UBS, novas obras de esporte, pavimentação, pista de

Read More...

Diadema na final feminina de futebol da Taça das Favelas 2026

Meninas do time Favela do Campanário disputam a decisão no Pacaembu, dia 31, com transmissão pela TV; torneio é

Read More...

Leave a reply:

Your email address will not be published.

Mobile Sliding Menu