Sal da esperança

In ABCD, Artigo On

Guttemberg Guarabyra

Perdemos a batalha. Jamais perderemos a lembrança.

—

Às vezes acorda-se durante um mau sonho e outras vezes se descansa durante um pesadelo.

Adelaide fazia as melhores panquecas que minhas células gustativas já experimentaram.

Quando se fala em pratos saborosos, confeccionados à perfeição, sempre surge o lembrete da imprescindibilidade da utilização de ingredientes de primeira qualidade.

Quanto maior a qualidade dos ingredientes, maior a certeza de um bom resultado.

O recheio das panquecas da Adelaide emanavam o perfume da boa azeitona, o frescor da pimenta do reino de qualidade, a consistência da bem escolhida carne moída, o engolir feito um trago, como ato final de prazer.

Mas principalmente a qualidade da experiência, amor e anos de dedicação à herança da culinária familiar. Sem esse tipo de ingrediente, há muitos pratos muito bons. Nenhum porém tão belo como o rio que corre pela minha aldeia.

Quando a receita começou a desandar, quando os problemas de saúde que a levariam junto com todos os perfumes da imensa variedade de essências de sua cozinha herdada das avós, e que levaram também o papo amoroso, delicado e de tanto amor, humor e simpatia, fizemos de tudo para que não partisse.

Meses de hospitais, crises, cuidadoras, ambulâncias nas madrugadas, as finanças escorrendo pelas frestas dos atendimentos caríssimos, não conseguiram esmorecer nossos contra-ataques.

Conseguimos muitas vitórias.

Até que num dia assim de uma tarde assim as lágrimas vieram assim. O sal da esperança escorrendo por nossos rostos e os temperando com essa imensa saudade.

Perdemos a batalha.

Jamais perderemos a lembrança.

Odeio a frase simplista ‘vida que segue’ sempre repetida nessas ocasiões, como conforto.

Sugere descaso ao insinuar que tudo volta a ser como antes, como se nada de importante houvesse acontecido.

E é mentira.

Sem a presença de Adelaide, seu porte nobre e sábio mesmo quando já debilitada e frágil, a vida segue sim, mas não do mesmo jeito.

Pelo menos nos momentos em que minha memória percebe o perfume de suas receitas, inexplicavelmente surgido durante uma viagem ao descortinar a paisagem da estrada.

Seus olhos, escondidos sob as plantas da mataria que tanto amava, lançavam o último adeus.

Descansou durante um pesadelo. É o que consola.

As lágrimas surgiram mas logo foram secando.

Adeus. Durma em paz.

 

Música do dia

  • Guttemberg Nery Guarabyra Filho, ou Guttemberg Guarabyra, ou apenas Guarabyra, nascido em Barra, Vale do São Franscico, Interior da Bahia, cronista de ABCD REAL, músico, compositor, escritor e poeta brasileiro. Entre seus maiores sucessos como compositor estão as canções “Mestre Jonas” e “Outra vez na estrada” (ambas em parceria com Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix), “Casaco Marrom” (com Renato Correa e Danilo Caymmi), “Sobradinho” (com Luiz Carlos Sá) , “Espanhola” (com Flávio Venturini), Dona e muito mais. Escreveu O Outro Lado do Mundo e Teatro dos Esquecidos, além de inúmeras crônicas.

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