Por Alexandra Calixto Gioso, Gerente de Relações Institucionais da Braskem Sudeste
O Dia Nacional da Reciclagem, celebrado em 5 de junho, vai além de uma data simbólica. É um convite necessário à reflexão sobre o papel que cada um de nós, sociedade, empresas e poder público, desempenha no avanço da agenda ambiental no Brasil. Em regiões industriais como o Grande ABC, esse debate ganha ainda mais relevância.
Nos últimos anos, a sustentabilidade deixou de ser um conceito periférico para ocupar o centro das decisões estratégicas. Consumidores mais conscientes, metas ambientais mais ambiciosas e o avanço de tecnologias vêm impulsionando a agenda da circularidade.
No entanto, há um aspecto fundamental que frequentemente passa despercebido: a reciclagem só acontece porque existe uma cadeia estruturada, formada por milhares de trabalhadores e cooperativas.
É sobre essas pessoas, e o papel essencial que exercem, que precisamos falar com mais profundidade.
No Grande ABC, berço da industrialização brasileira e ainda hoje um dos principais polos econômicos do Estado de São Paulo, os desafios urbanos se somam à dinâmica produtiva intensa. A reciclagem não pode ser analisada apenas por indicadores de reaproveitamento ou volume de material processado. Por trás desses números, há uma estrutura complexa e essencial, sustentada por trabalhadores que atuam diariamente na coleta, separação e triagem de resíduos.
As cooperativas são protagonistas dessa engrenagem. Além do impacto ambiental positivo, promovem inclusão produtiva, geração de renda e desenvolvimento local, especialmente em regiões metropolitanas densamente povoadas. Ainda assim, enfrentam desafios estruturais importantes, como limitações de infraestrutura, acesso restrito à tecnologia, necessidade de profissionalização e instabilidade econômica.
Fortalecer essas organizações, portanto, não é apenas uma ação social, é uma estratégia central para o avanço da economia circular no país.
Isso exige ir além do discurso. Ampliar a reciclagem não significa apenas incentivar o descarte correto, mas criar condições concretas para que toda a cadeia opere de forma mais eficiente, estruturada e sustentável.
Foi com essa visão que surgiu o Programa SER+, iniciativa da Braskem criada em 2009 e expandida nacionalmente em 2012. O programa tem como foco a inclusão social e o desenvolvimento socioeconômico de trabalhadores da triagem de resíduos, promovendo a profissionalização das cooperativas.
Na prática, isso se traduz em ações estruturadas que vão desde diagnósticos personalizados até investimentos em infraestrutura, formação de lideranças e monitoramento de resultados. Mais do que apoiar o dia a dia dessas organizações, o SER+ busca fortalecer sua autonomia e sustentabilidade no longo prazo.
Os resultados mostram que esse caminho é possível. Mais de 70 cooperativas no Brasil já foram beneficiadas pelo programa, com impacto direto sobre cerca de 1.200 cooperados por ano. Atualmente, 23 organizações são apoiadas, com aproximadamente R$ 16 milhões investidos desde 2018. No ABC paulista e região do Parque São Rafael, a participação das cooperativas ocorre de forma contínua desde 2018.
Somente em 2025, foram destinados R$ 1,8 milhões para melhorias estruturais, aquisição de equipamentos e capacitações. Nesse período, as cooperativas apoiadas comercializaram cerca de 16 mil toneladas de resíduos, sendo 3,8 mil toneladas de plástico, impactando diretamente a renda de aproximadamente 680 catadores.
Além disso, iniciativas como o Projeto Cooperativas contribuíram para ampliar o entendimento sobre as necessidades reais dessas organizações. Realizado em 2024, o projeto interno integrou diversas áreas da Braskem em um estudo conduzido com cooperativas de seis estados. A iniciativa mapeou gargalos operacionais relevantes, como desafios de regularização documental, limitações na capacidade de armazenamento e a elevada granularidade exigida na separação dos materiais. Também foram identificadas barreiras relacionadas à circularidade das embalagens, associadas a fatores como design e tipo de material. A partir desse diagnóstico, o projeto fortaleceu a conexão direta entre cooperativas e recicladores, reduzindo intermediários e ampliando oportunidades.
Esses avanços indicam um caminho claro: a economia circular só se fortalece quando há responsabilidade compartilhada.
Nenhuma empresa, setor ou instituição conseguirá promover essa transformação isoladamente. É preciso integração, continuidade de investimentos, desenvolvimento de políticas públicas eficazes e, principalmente, engajamento da sociedade.
Porque reciclagem não é apenas uma pauta ambiental. É também social, econômica e humana. Envolve trabalho, renda, dignidade e o reconhecimento de profissionais que desempenham um papel indispensável para o funcionamento das cidades.
No Grande ABC, fortalecer a cadeia da reciclagem é também uma forma de projetar o futuro da região, um futuro em que desenvolvimento econômico, inclusão social e preservação ambiental caminham juntos.
Mais do que uma necessidade, trata-se de uma oportunidade concreta de transformação.
Neste Dia Nacional da Reciclagem, fica o convite: que possamos enxergar a circularidade não como um conceito distante, mas como um compromisso coletivo e permanente, construído todos os dias, por muitas mãos, e essencial para um futuro mais sustentável.
