O poder de polícia se amplia; o controle, não!

In ABCD, Artigo On
- Updated

Por Ernesto Puglia Neto e Frederico Afonso Izidoro*

Em uma República, todo poder coercitivo tem contrapartida obrigatória. Quem aborda, revista, prende ou porta arma em nome do Estado deve estar sujeito a controle efetivo e auditável. Isso vale para as Polícias Militares, Civis, Penais e Federais. E vale, com a mesma intensidade, para as Guardas Municipais.

É por essa porta que se deve entrar no debate sobre a PEC 18/2025, aprovada pela Câmara e em tramitação no Senado. A proposta autoriza os municípios a instituírem polícias de natureza civil e admite a transformação dos cargos das atuais Guardas Municipais.

Não se cobra de uma emenda a minúcia de um regulamento. O ponto é anterior: antes de ampliar a arquitetura do sistema, o Estado precisa demonstrar que consegue cumprir a que já aprovou. O SUSP, o Estatuto Geral das Guardas Municipais e as Leis Orgânicas Nacionais de 2023 já preveem integração, governança e controle. Falta convertê-los em rotinas, protocolos e sistemas operacionais.

Os números explicam a cautela. Para estimar quantas Guardas existem, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública precisou cruzar três bases divergentes: a RAIS apontou 1.357 municípios; o IBGE, 1.306; a Senasp, 1.238. A melhor estimativa disponível é 1.384 municípios e 107.457 agentes, e o próprio estudo adverte que o número não é definitivo. Das 1.238 corporações mapeadas, apenas 678 responderam ao questionário. Entre as pesquisadas, 43,3% não possuíam qualquer órgão de controle.

O ponto decisivo está no art. 2º do texto aprovado. Certificado o município, a conversão dos cargos é tratada como consequência direta, sem que se esclareça como será demonstrada a equivalência individual com a nova carreira. Haverá avaliação? Curso de transição? Direito de opção? A lógica do art. 37 da Constituição e da Súmula Vinculante nº 43 rejeita a investidura em carreira diversa sem concurso específico. Uma emenda dessa envergadura precisa demonstrar, e não presumir, a identidade substancial dos cargos que converte.

Não somos contra as Guardas Municipais, nem apresentamos as Polícias Militares como modelo acabado de controle. Onde houver abuso, que se investigue. O que rejeitamos é a conversão direta de milhares de cargos antes de consolidadas as condições que a própria mudança pressupõe.

Cumprir antes de ampliar. Controlar antes de transformar. Nenhuma migração coletiva por presunção.

*Ernesto Puglia Neto – Professor. Escritor. Consultor na área de chefia e liderança. Doutor, Mestre e Bacharel em Ciências Policiais de Segurança e de Ordem Pública. Especialista em Direitos Humanos pela USP (Universidade de São Paulo). Coronel veterano da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Foi Diretor de Polícia Comunitária e Direitos Humanos da PMESP. É atualmente o Secretário-Executivo da DEFENDA PM (Associação dos Oficiais Militares do Estado de São Paulo em Defesa da Polícia Militar).

Frederico Afonso Izidoro – Professor. Escritor Jurídico. Advogado licenciado. Doutorando em Liderança Educacional. Mestre em Direito Internacional. Mestre e Bacharel em Ciências Policiais de Segurança Pública e de Ordem Pública. Mestre em Direito. Especialista em Direitos Humanos, Gestão da Segurança e Ordem Pública. Especialista em Direitos Humanos. Atualmente coordena a pós-graduação em Direito Militar na Faculdade Legale. Coronel veterano da Polícia Militar do Estado de São Paulo, foi chefe do Departamento de Direitos Humanos da PMESP e é o atual diretor de Comunicação Social da FERMESP (Federação das Entidades Representativas dos Militares do Estado de São Paulo) e diretor Jurídico da DEFENDA PM (Associação dos Oficiais Militares do Estado de São Paulo em Defesa da Polícia Militar).

You may also read!

Fundo Social de Ribeirão Pires abre inscrições para curso de Padaria Artesanal

Capacitação começa em 15 de outubro e reúne técnicas de panificação, boas práticas de manipulação de alimentos e receitas O

Read More...

Jéssica Roberta acompanha gestante e mostra na prática como funciona o Vale Cegonha em Santo André

Programa facilita, em primeiro lugar, o transporte de gestantes de alto risco para consultas e exames no Hospital da

Read More...

Senadora Mara Gabrilli disputa cadeira na Alesp e afirma que “importante é trabalhar, não importa o lugar”

Joaquim Alessi Eleita para o Senado em 2018 com mais de 6,5 milhões de votos, Mara Gabrilli (PSD), do ABCD,

Read More...

Leave a reply:

Your email address will not be published.

Mobile Sliding Menu