O carro o jato o barquinho…

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  • Guttemberg Guarabyra

No rolo do meu filme de lembranças adolescentes, o jato decidiu não voar, ultrapassou o limite da pista, atravessou a avenida e submergiu no mar.

Aconteceu agora.

Dia de luz, festa de sol, um céu claro, nuvens viajando lentamente.

Pensei. Um dia assim inspirou Aloysio de Oliveira a escrever a letra de Dindi.

Tenho uma Alexa. Pensei em pedir que procurasse nas nuvens, já que o tema é nuvens, uma gravação de Dindi. Mas lembrei que adorava a interpretação de Sylvinha Teles.

Deu saudade da voz de Sylvinha e achei que não ficaria satisfeito em ouvir apenas um número do repertório, então generalizei:

— Alexa, toca Sylvinha Teles.

Ao ouvir os primeiros acordes meu coração bateu rápido. Tratava-se justamente da introdução de Dindi.

O céu tão grande é o céu e bandos de nuvens que passam voando…

Lá estavam o cenário e a poesia.

Uma lembrança puxa outra e o carro esquecido ao relento à margem da rodovia de Maricá foi trazida.

A viagem transcorria dentro da normalidade no ônibus que levaria a comunidade da Igreja Batista Betel de Niterói para mais um retiro espiritual.

Lá estava eu.

No início do percurso, hinos, como sempre, esgoelados no volume máximo. Falo esgoelados por serem de fato esgoelados no volume máximo, mas não que isso incomodasse. Era tudo alegria.

Até que o ímpeto inicial amainasse naturalmente e a calma e os papos em voz baixa dominassem a viagem.

Cujo sossego foi bruscamente quebrado por um grupo de passageiros nos primeiros assentos. ‘Olha o carro da Sylvinha!”

Mal deu tempo de ver.

Até hoje me é inexplicável o motivo pelo qual o carro em que se acidentou e morreu ainda permanecia abandonado à beira da estrada após tanto tempo decorrido desde o acidente.

Lembrança puxa outra, e outro abandono inexplicável projeta no meu cinema interior a cauda imensa de um jato de passageiros boiando lentamente ao lado da ponte que ligava, no Rio, a Ilha do Governador ao continente.

Imponente como um monstro do lago Ness, o mistério daquele desastre pelo menos em parte me foi desvendado.

Ou quase. No rolo do meu filme de lembranças adolescentes, o jato decidiu não voar, ultrapassou o limite da pista, atravessou a avenida e submergiu no mar.

Era grande demais para ser resgatado e a praia o transformou em monumento triste.

Mas o abandono do carro de Sylvinha era diminuto e passava ligeiro. Se não gritassem para que o imprimíssemos na memória, jamais o teríamos visto.

‘As nuvens passam depressa’

E novamente Tom Jobim, mas não com Aloysio de Oliveira.

Desta vez com Dolores Duran.

‘Olha meu bem nunca mais nos deixe por favor’

Quem dera um dia Alexa, com um simples pedido, pudesse trazer vocês de volta.

 

Música do dia

  • Guttemberg Nery Guarabyra Filho, ou Guttemberg Guarabyra, ou apenas Guarabyra, nascido em Barra, Vale do São Franscico, Interior da Bahia, cronista de ABCD REAL, músico, compositor, escritor e poeta brasileiro. Entre seus maiores sucessos como compositor estão as canções “Mestre Jonas” e “Outra vez na estrada” (ambas em parceria com Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix), “Casaco Marrom” (com Renato Correa e Danilo Caymmi), “Sobradinho” (com Luiz Carlos Sá) , “Espanhola” (com Flávio Venturini), Dona e muito mais. Escreveu O Outro Lado do Mundo e Teatro dos Esquecidos, além de inúmeras crônicas.

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