Crises mal explicadas geram decisões ruins

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Leandro Prearo


Prof. Dr. Leandro Prearo*

Crises não são apenas momentos de ruptura. São momentos de explicação. Quando a explicação falha, a decisão quase sempre falha junto.

Pandemias, crises econômicas, eventos climáticos extremos, colapsos institucionais. Em todos esses casos, o problema não foi apenas a falta de informação. Dados existiam. Estudos existiam. Projeções estavam disponíveis.

O que faltou, muitas vezes, foi capacidade de organizar sentido antes de agir. Crises exigem decisões rápidas, mas não decisões cegas. Quando a explicação é simplificada demais, a resposta tende a ser errada. Quando causas estruturais são tratadas como episódios pontuais, soluções viram paliativos. O custo aparece depois, em retrabalho, perda de confiança e agravamento do problema inicial.

Há uma confusão recorrente entre urgência e improviso. A urgência pede prioridade. O improviso dispensa método. Em situações críticas, essa dispensa cobra um preço alto. Decisões tomadas sem diagnóstico adequado tendem a produzir efeitos colaterais que alimentam novas crises.

A dificuldade de explicar bem uma crise também tem relação com a recusa da complexidade. Explicações mais honestas são, por natureza, desconfortáveis. Elas envolvem incerteza, trade offs, conflitos de interesse e limites do conhecimento disponível. Em ambientes polarizados, esse tipo de explicação perde espaço para narrativas simples e reconfortantes.

A formação científica treina exatamente o oposto. Antes de decidir, é preciso entender. Antes de propor solução, é preciso formular corretamente o problema. Esse tempo de análise não é atraso. É proteção contra erro sistemático.

Quando crises são mal explicadas, a decisão vira gesto simbólico. Algo precisa ser feito, ainda que não seja o certo. O método cede lugar à performance. A ação substitui o entendimento. O resultado costuma ser conhecido.

Talvez uma das lições mais duras dos últimos anos seja essa. Não é a crise que gera decisões ruins. É a explicação ruim da crise que nos conduz ao erro.

E isso não se resolve com mais opinião. Se resolve com mais método.

Mesmo quando não há tempo sobrando.

*Prof. Dr. Leandro Prearo é reitor da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul)

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