Conflito no Oriente Médio pressiona mercados, mas não há risco de desabastecimento no Brasil

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Polo Petroquímico. Foto: Rodrigo Pinto/Divulgação

Dados mostram capacidade instalada elevada, capaz de suprir, portanto, eventual queda de importações, origem de importações longe da região de conflito, e resiliência histórica do setor

O atual conflito no Oriente Médio iniciado no final de fevereiro tem gerado, em primeiro lugar, volatilidade e incertezas nos mercados globais.

Mas, a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) esclarece não haver dados que indiquem impactos reais sobre o abastecimento no Brasil, no curto prazo.

Mesmo num cenário hipotético de queda drástica de importações, a indústria química tem capacidade ociosa suficiente para suprir a demanda doméstica.

Análises alarmistas e equivocadas recentemente veiculadas baseiam-se majoritariamente, acima de tudo, em projeções e preços pontuais (“spot”), enquanto o setor químico opera, em sua essência, com contratos de médio prazo e cláusulas de demanda firme.

Essa dinâmica estrutural reduz, em suma, a transmissão imediata de oscilações e garante previsibilidade ao suprimento.

Capacidade instalada e ociosidade elevada

Não há insuficiência estrutural de produção no país. Pelo contrário: a indústria química brasileira opera com níveis críticos de ociosidade.

Em 2025, a média alcançou 41%, o pior patamar em 30 anos. Em segmentos de intermediários para plásticos, esse índice chega a 45%.

Temos, portanto, ampla capacidade disponível na produção de resinas termoplásticas (incluindo PE, PP e PVC).

É fundamental compreender que a concentração industrial observada no Brasil não é uma distorção, mas uma característica global do setor. Por ser uma atividade intensiva em capital, a produção petroquímica exige escala mundial e plantas integradas para garantir eficiência e soberania produtiva para as demais cadeias de valor.

Níveis de utilização e ociosidade das principais resinas termoplásticas no Brasil em 2025, evidenciando folga operacional para expansão da produção sem novos investimentos

O mito do desabastecimento: Lições da Pandemia

A resiliência do setor foi testada e comprovada recentemente.

Mesmo durante o auge da pandemia de COVID-19 (2021-2022), uma crise sem precedentes na história moderna, não houve paralisação sistêmica no fornecimento de insumos essenciais para setores de alimentos, saúde e embalagens.

O mercado interno foi plenamente atendido pela combinação de estoques nacionais e importações complementares, descartando qualquer hipótese de colapso de suprimento no cenário atual.

Importações: Fenômeno econômico, não logístico

Historicamente, o Brasil importa entre 25% e 30% das resinas que consome — um padrão de equilíbrio comum em mercados globais. No entanto, entre 2024 e 2025, esse percentual saltou para cerca de 46%, configurando um surto predatório de importações que intensificou a ociosidade das fábricas nacionais.

É importante destacar que o aumento da presença de produtos estrangeiros não possui relação com o conflito no Oriente Médio. As importações brasileiras de resinas são originárias, em sua vasta maioria, das Américas (com destaque para os EUA), da China, de outros parceiros asiáticos e do Egito — regiões que não sofrem impactos logísticos ou operacionais diretos pelas hostilidades atuais.

Principais origens das importações de resinas para o Brasil e sua participação no consumo nacional. O suprimento advém majoritariamente de regiões fora da zona de conflito, como Estados Unidos, América Latina e Ásia

Resinas especiais e “grades” técnicos

O Brasil possui capacidade para produzir os mais diversos grades de PE, PP e PVC. Em casos específicos onde ocorre a importação de resinas de nicho, trata-se de uma decisão comercial dos transformadores (como homologações técnicas específicas ou estratégias de custo) e não de uma limitação técnica da indústria nacional. Importar nichos de baixa escala é uma prática de escolha empresarial, não uma falha produtiva do país.

Preços e Competitividade

Sobre as especulações de aumentos de preços, a Abiquim reitera que todo o setor produtivo mundial está sofrendo as pressões de aumento de custos decorrentes da elevação do preço do petróleo, assim sendo não se espera que essa situação tenha impactos em padrões de competitividade.

Além disso, o conflito ainda não completou um mês e os dados disponíveis não permitem ainda identificar a extensão, em termos de abrangência e duração, de eventuais pressões sobre preços.

Historicamente, em momentos de volatilidade global, não é o setor químico que se apropria de margens.

Muitas vezes, esse comportamento é observado em outros elos da cadeia de transformação.

Conclusão

O desafio central da indústria química brasileira não é a falta de produto, mas a competitividade da produção nacional.

O setor enfrenta gargalos estruturais severos, como o alto custo de energia, o preço elevado do gás natural e assimetrias regulatórias.

Além disso, elas somam-se a práticas desleais de comércio internacional.

Esse cenário de invasão de produtos importados, mesmo com ampla capacidade nacional disponível, reforça a urgência de políticas de comércio exterior firmes.

Instrumentos como a Lista de Desequilíbrios Concorrenciais Conjunturais (DCC) e medidas antidumping são vitais para combater o comércio desleal e garantir que a indústria nacional continue a sustentar investimentos, inovação e o desenvolvimento do País.

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