Profissões, influenciadores e muitas picaretagens

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Por Marli Gonçalves*

Adoro notícias, e, claro, especialmente as boas notícias. Mas há muitas que me deixam encafifada quando confrontadas com a realidade das ruas e, enfim, da vida. Uma delas é a da queda brutal do desemprego. Fora a gente estar tropeçando em pessoas vendendo de um tudo, ainda há as novas apresentações como profissões, entre elas, a de influenciadores. Meu medo é que pelo andar da carruagem vire profissão também ser “membro de organização criminosa”.

Peraí, os nomes mudaram mesmo? Ninguém mais é camelô? Agora é tudo empreendedor? Bonito. De verdade. Porque as pessoas que estão pelas ruas, em barracas ou não, vendendo coisas, estão lutando para levar o pão para casa, e muitos o fazem com as habilidades que têm e que se descobriram na crise, por conta da maléfica pandemia, ou melhor até, das nossas sucessivas crises, que tempos de equilíbrio mais longos são raros.

É o bolo ou o salgado que sempre fez sucesso. A habilidade em criar bijuterias. Os que mudaram para o campo e começaram a produzir queijos, mel, doces, pimentas, geleias e, criativos, deram bons nomes, criaram embalagens e formatos diferentes, presentes em feiras e eventos que se multiplicaram. Outros aprenderam a fazer pães. Há quem crie roupas, inclusive com retalhos reciclados, transformados. Os mais habilidosos têm criado até luminárias e móveis. Aplausos, tem muita coisa boa aparecendo. Uma cultura alternativa que tem valor e deve mesmo ser aplaudida, incentivada, apoiada; e daí tantos conseguiram ser mesmo empreendedores, com tudo que lhes é de direito, inclusive cursos e educação financeira oferecidos por instituições de renome. Assim, também há um grande número que largou seus empregos pelo sonho de se tornar independentes, sem chefes. Também saíram do índice de pessoas à procura do trabalho.

Nesse meio ainda estão os nem-nem, que nem trabalham, nem estudam – um número que oscila nas pesquisas oficiais.

Entretanto tem aparecido uma penca de pessoas que por qualquer coisa agora se identifica como influenciador. Certamente repararam como isso virou uma “profissão” que ouvimos toda hora. O cara pode até ser formado em mil coisas, mas agora vira só influenciador, ao invés de apresentados, quando se enrolam, como deveriam – criminosos, o que infelizmente vêm sendo muito comum, especialmente ao se tratar de jogos ilegais e demonstrações absurdas de riqueza e ostentação para atrair incautos. Citados assim também em violências e outros abusos, inclusive como vítimas, especialmente as mulheres.

Estranho, porque no fundo todo mundo pode influenciar alguém, para o bem e para o mal, e em qualquer coisa.  O sentido é amplo. Creio que todos já ouviram: “Cuidado com as más influências”, em geral de aflitas mães ao perceberem mudanças estranhas de comportamento.

Entendam que vejo sim, claramente, a rápida mudança dos tempos com a aceleração da vida digital que propiciou o desenvolvimento de importantes mercados de trabalho. O que invoco mesmo é com a facilidade da apresentação de quase qualquer um como “influenciador”, ou pior ainda, “influencer”, mais pedante ainda. Assim como as tais celebridades, subcelebridades, ex realities, ex BBBs, ex qualquer coisa. Tenho ou não razão em temer a ocupação de “membro de organização criminosa”? Qual seria o registro oficial dessas atividades?

Se bem que essas organizações cada vez mais fortalecidas estão mesmo infiltradas em tudo e até no Parlamento. Aliás, “político” é profissão? Nananinanão.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital.  marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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