Guttemberg Guarabyra
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Ou seja, de explodir as portas de vidro e, gesto seguinte, nos atirar a nós quatro, eu, ele e as simpáticas mocinhas, ao mar onze andares abaixo.
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Naquela noite a tempestade veio pesada. No décimo-primeiro andar, de cara pro mar, as rajadas de vento faziam estremecer as portas de vidro da varanda. Caso não suportassem a pressão, seria uma tragédia.
Por via das dúvidas, não me aventurei mais na sala.
Refugiei-me num dos dois quartos do apartamento e só punha a cabeça pra fora de vez em quando, a ver se as portas continuavam aguentando bem.
Toca o telefone. É Zezinho. Está na rodoviária e não sabe quando vai conseguir chegar. Por lá também há o mesmo caos.
Tinha esquecido que iria hospedá-lo. Aliás, em se tratando dele, mais provável ter esquecido que ia me visitar. Ou algo do gênero. Coisas do Zé.
Lá se foi a energia elétrica. Pela primeira vez lamentava não ter velas em casa. Fosse no sertão, um candeeiro estaria ao alcance da mão, na certa.
Rio de Janeiro não é lugar de candeeiro. Dá música. Mas até o violão está fora do alcance.
A falta de energia elétrica deveria deixar-me mais nervoso, porém, ao contrário, me acalmou. Tateei à procura de um cobertor. Encontrei-o, embrulhei-me nele. E dormi.
Acordei com o telefone. Era a portaria. Zezinho pedia permissão para subir.
Que suba.
A luz havia retornado, mas a chuva não dava trégua.
Tocam a campainha, abro a porta e lá está a figura que, mesmo encharcada, mantinha o porte nobre emoldurado pelo profundo olhar de gente séria por trás dos óculos elegantérrimos. Apenas um disfarce. Mais louco, impossível.
Para provar o que digo, não estava sozinho. Atrás dele, idem encharcadas, duas moças. Por sorte não havia atendido a porta em trajes sumários.
A primeira reação ao vê-los naquele ensopado foi a de socorrê-los, providenciar toalhas, perguntar se não queriam sacar de suas bagagens uma roupa seca, livrarem-se do estado de pântanos ambulantes
Lá fora o aguaceiro continuava batendo forte.
Aceitas as sugestões, livres das roupas molhadas, finalmente fui apresentado às moças.
Zezinho as conhecera no ônibus, durante a viagem. Viajavam pela primeira vez ao Rio. Como não tinham muita certeza do endereço da amiga onde iriam se hospedar, as convidou para ficar em minha casa.
Pedi licença e trouxe meu amigo até onde não poderiam nos ouvir.
Apliquei-lhe um questionário curto. Concentrou-se apenas num assunto.
Quis saber como não lembrou, ao convidar as amáveis jovens, do ciúme doentio de minha namorada, que era inclusive sua amiga, muito capaz de provocar a tragédia que os ventos não haviam conseguido, ou seja, de explodir as portas de vidro e, gesto seguinte, nos atirar a nós quatro, eu, ele e as simpáticas mocinhas, ao mar onze andares abaixo. Insisti sobre como não havia lembrado desse detalhe.
A chuva ainda batia muito forte quando partiram.
Senti um certo peso na consciência, mas ao lembrar da brabeza da namorada, livrei a mente de todo arrependimento.
Zezinho voltou de madrugada, novamente encharcado. Jamais perguntei como haviam se virado para achar o endereço na tempestade. E nunca mais falamos sobre isso.
Essa semana, vendo a chuva, lembrei daquela noite. Fiquei imaginando que, se fosse hoje, e eu aplicasse novamente o questionário sobre como havia concluído que poderia oferecer a hospedagem sem me consultar, bem capaz que respondesse:
— Pintou um clima.
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Música do dia
- Guttemberg Nery Guarabyra Filho, ou Guttemberg Guarabyra, ou apenas Guarabyra, nascido em Barra, Vale do São Franscico, Interior da Bahia, cronista de ABCD REAL, músico, compositor, escritor e poeta brasileiro. Entre seus maiores sucessos como compositor estão as canções “Mestre Jonas” e “Outra vez na estrada” (ambas em parceria com Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix), “Casaco Marrom” (com Renato Correa e Danilo Caymmi), “Sobradinho” (com Luiz Carlos Sá) , “Espanhola” (com Flávio Venturini), Dona e muito mais. Escreveu O Outro Lado do Mundo e Teatro dos Esquecidos, além de inúmeras crônicas.