A necessidade de discussões mais técnicas e menos ideológicas sobre o fim da escala 6×1

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Paulo Serra

Paulo Serra*

O debate sobre o fim da escala 6×1, que compreende seis dias de trabalho para um de descanso, voltou à pauta nacional com força. E isso não é por acaso. Num mundo que discute produtividade, saúde mental e qualidade de vida, repensar modelos tradicionais de jornada laboral deixou de ser luxo; passou a ser necessidade.

Como quase tudo no Brasil, porém, o tema corre o risco de cair na armadilha da polarização. De um lado, tem quem defenda a mudança de forma imediata, como solução isolada para melhorar a vida do trabalhador. De outro, há quem enxerga a proposta como inviável economicamente. A verdade, como sempre, exige mais gestão, menos simplificação, e menos discurso polarizado e pautado no ódio, no “nós contra eles”.

É fato que a escala 6×1 impacta diretamente a qualidade de vida. Ela significa menos tempo com a família, menos horas para o lazer, o descanso e a qualificação. Menos tempo para si mesmo; para colocar em dia as demandas pessoais e domésticas. Em setores mais operacionais, isso se traduz em desgaste físico e mental e aumento de afastamentos. Não por acaso, nações desenvolvidas vêm testando e implementando jornadas reduzidas, como semanas com quatro dias de trabalho ou carga horária mais flexível.

Os resultados dessas experiências têm sido, em muitos casos, positivos, com o registro do aumento de produtividade, maior engajamento dos trabalhadores, e melhora nos indicadores de bem-estar. A lógica é simples: um profissional, em tese, mais descansado e motivado produz mais e melhor.

Por outro lado, é preciso reconhecer os desafios do tema em tela. Comércios, serviços essenciais, Indústria e Logística dependem de operação contínua. Reduzir a jornada sem planejamento pode significar aumento de custos, pressão sobre pequenos e médios empresários e, no limite, perda de empregos.

É aqui que entra o ponto central: gestão. A discussão sobre o assunto, portanto, não pode ser ideológica, precisa ser técnica. Não se trata de, simplesmente, acabar com a escala 6×1 por decreto, mas de criar condições para que a Economia brasileira absorva mudanças desta natureza sem gerar desequilíbrios.

Se a União fizer a sua parte com responsabilidade fiscal, controle de gastos e políticas que permitam a queda consistente dos juros – numa esteira compensatória ao Mercado – o ambiente econômico muda. Empresas investem mais, modernizam processos, incorporam Tecnologia e aumentam sua eficiência. Sempre funcionou assim, ao longo da história. E é justamente este ganho de produtividade que pode viabilizar jornadas menores sem que haja perda de renda, consequentemente.

O que quero dizer é que qualidade de vida e crescimento econômico não são opostos, rivais, antagônicos. Pelo contrário: caminham juntos quando há planejamento.

O Brasil precisa entrar neste debate, sim, mas com maturidade. Nem com soluções mágicas, nem com resistência automática. É necessário que o País olhe para o que o mundo está fazendo e já fez face ao assunto; lance mão de adaptação e, principalmente, crie condições para que os devidos ajustes aconteçam de maneira sustentável, com responsabilidade, dados e, acima de tudo, com foco na vida das pessoas e na manutenção dos negócios.

*Paulo Serra é especialista em Gestão Governamental e em Políticas Públicas, pela Escola Paulista de Direito; e em Financiamento de Infraestrutura, Regulação e Gestão de Parcerias Público-Privadas (PPPs), pela Universidade de Harvard (Estados Unidos); cursou Economia, na Universidade de São Paulo (USP); é graduado em Direito, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo-SP; professor universitário no curso de Direito, também é 1º vice-presidente da Executiva Nacional do PSDB e presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo; foi prefeito de Santo André-SP, de 2017 a 2024.

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