O nome das vítimas, o Orelha e a comoção nacional

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Por Marli Gonçalves*

Animais e pessoas. Orelha, Joca, Sansão, Manchinha. Tainara, Daiane, Marias, muitas. Na semana que sabemos que São Paulo encerrou 2025 com recorde histórico no número de feminicídios, 266 mortes, registro de 60 delas na Capital, acompanhamos a saga do Orelha.

Tristezas, comoção geral, protestos, artigos, todo tipo de manifestações, noticiário, imagens e redes sociais mobilizadas, até veladas ameaças de prisão a quem expuser o nome e imagens dos jovens assassinos e suas famílias. A casinha vazia na praia com flores e homenagens, a história da vidinha, do carinho que recebia da comunidade. Como foi a violência que Orelha sofreu, que necessitou de eutanásia tal dimensão. Negão, outro, foi baleado por um PM no Rio Grande do Sul. Arrastada por uma moto, presa a uma corda, Vitória ganhou esse nome depois de ser salva, machucada, e ao ser medicada, diagnosticada com câncer poderoso. Na Praia Grande, em São Paulo, Neguinha, cachorrinha, esfaqueada. Chico morreu no Sergipe, esfaqueado na cabeça com um facão. Caramelo levou dez tiros de um segurança porque latiu ao vê-lo empurrar uma mulher. Todos eram cachorros comunitários, aqueles sem dono, mas que todos cuidam. Assim foram os últimos dias, nos quais Orelha se transformou em símbolo maior.

Mas até agora, este mês, janeiro de 2026, já foram registrados dez feminicídios no Rio Grande do Sul; seis, em Santa Catarina, e um outro tanto que não sabemos e nem certamente saberemos na imensidão do Brasil. Na semana foi marcante o encontro do corpo da corretora desaparecida após mais de um mês; tinha sido assassinada e jogada no mato pelo síndico do prédio. Aqui e ali lembramos da Tainara atropelada e arrastada por um quilômetro em uma das principais vias de São Paulo, pernas amputadas, ainda lutou para viver. Repetindo: São Paulo encerrou 2025 com recorde histórico no número de feminicídios, 266 mortes, registro de 60 delas na Capital.

Precisamos nomear vítima por vítima, também contar suas histórias, prender seus algozes, e também especialmente cuidar da proteção real das outras milhares que poderão vir a ser as próximas. Mulheres comuns confinadas, temerosas, sem saber como fugir da sina, como viver, proteger seus filhos. Que sejam vistas suas situações. Especialmente, que as medidas de proteção, se pediram, sejam eficazes, e não apenas um papel amassado. De muitas delas as comunidades em que vivem se descuidam.

Conheço bem os dois lados dessas histórias, a das mulheres e a dos animais. Já me safei de ser vítima e de não estar mais aqui para contar nenhuma história. De não poder, o que faço há décadas, apontar a inanição das autoridades e leis e projetos de proteção. Sobrevivi com a marca que, assim como eu, tantas levam pela vida inteira.

Há muito também já cuidei de animais livres, minha inesquecível Banzai e seu amigo Capitão: viviam em Ilhabela, sempre sob ameaças e que nos faziam muitas vezes arrumar encrencas e brigas, pegar estrada na madrugada para conferir se estavam bem. Enquanto pude. Um dia eles sumiram, foram sumidos, sem deixar rastros.

Precisamos falar sobre a violência, que tem atingido níveis alarmantes, de todas as formas, sobre pessoas e animais. Não quero mais só ver a imagem das câmeras depois do que aconteceu, assistir como se fosse cinema, e a forma que as autoridades usam para mostrar trabalho, batendo no peito. É preciso, antes de mais nada, educar. Coibir o incentivo à violência que inunda as redes sociais, e em grupos já conhecidos, que só crescem, em desafios, safados nomeados em marcas como os tais “red pills’.

Vamos nos comover, guardar e honrar os nomes dessas vítimas, dos “Orelhas” e também das “Tainaras”. Não podemos deixar que sejam esquecidos, e os casos sejam sobrepujados e repetidos. Precisamos que os seus nomes, de gente ou bicho, bonitinhos ou não, permaneçam vivos, de qualquer forma. Queremos solução completa. Não, como tem parecido: os casos estejam sendo – pior – copiados.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital.

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