Guttemberg Guarabyra*
Na infância, vivi em Xique-Xique, que se situa, descendo o São Francisco, além de Barra do Rio Grande, onde nasci, e próximo a Central e Irecê, locais que produziam muito feijão. Toda vez que soube do aumento no preço do feijão, esperava pela notícia seguinte informando que a safra da região não vingara.
Naquele tempo, sem televisão, o mundo imaginário que toda criança possui, habitado por fadas, monstros e desejos de voar como um pássaro — anseio que frequenta meus sonhos — era alimentado pelas lendas que me eram contadas pelos caboclos e velhas da beira do rio, acostumados às aparições de mães-d’água, mulas-sem-cabeça e outras personagens lendárias. No meu caso, esse universo particular era enriquecido ainda pelas histórias do Tio Janjão e pelas narrativas do fabuloso Almirante, no programa Incrível, Fantástico, Espetacular, que viajava até o sertão baiano pelas ondas da Rádio Nacional.
Desse modo, com a cabeça sempre repleta de fantasia, não me foi difícil acreditar piamente na existência de Papai Noel. Acreditei ainda mais quando o pilhei, no escuro do meu quarto, esgueirando-se sorrateiro e depositando um presente sob minha rede. Permaneci em silêncio; não recordo se por medo ou para não assustar o bom velhinho. Sei apenas que, da forma como descrevi a cena no dia seguinte para os adultos, tenho certeza de que meu pai percebeu que quase havia sido desmascarado, pois relatei como, após empurrar a porta, agachou-se e, movendo-se com rapidez, acomodou o presente no chão e tratou de sair. Embora tenha achado estranho ouvir as risadas dos adultos após escutarem minha história, foi após essa visão que passei a ter a mais absoluta certeza da existência de Papai Noel.
Havia, além desse, outro componente mitológico que levava meu pensamento a pairar nas alturas. Não se tratava de nenhum ser ilusório, mas de um concreto e muito vistoso casarão, embora o que me deixasse mesmo agitado fosse o mistério do que ocorria em seu interior.
Toda vez que cruzava a ponta da rua onde ele se erguia, majestoso, no fim da Avenida César Zama (em uma esquina sempre inexplicavelmente deserta), e percorria a calçada comprida, meus músculos reagiam, entrando em absoluto estado de alerta. Parecia que algo ali me ameaçava. Sentia-me mais ameaçado quando ouvia os berros do bode preto que morava lá dentro.
Apesar de jamais o termos visto, eu e meus colegas sabíamos que o bode da maçonaria, além de muito bravo e com olhos que cuspiam fogo, era pretíssimo e cheirava a enxofre. Em suma, tratava-se do próprio diabo em forma de animal. Era segredo maçom protegidíssimo a maneira como o haviam capturado e como conseguiam mantê-lo amarrado. Se um dia conseguisse soltar-se, “ai de ti, Xique-Xique!” — é o que se dizia.
Dizia-se também que o bicho medonho era usado nas cerimônias de iniciação dos novos adeptos da maçonaria. Postavam o infeliz novato frente a frente com o demônio em forma de bode, e ele tinha que resistir às ameaças, aos berros, ao olhar de fogo, demonstrando calma e confiança em si e na maçonaria. Fiquei desconfiado do poder daquele demônio fedorento quando um de meus amigos atirou uma pedra sobre o muro alto, que, por sorte (ou azar, dependendo do ponto de vista), atingiu em cheio o diabo amarrado. Seu berro de dor deixou-me seriamente desconfiado de que estava mais para mamífero do que para demônio cruel.
Já adulto, descobri que as cerimônias de iniciação da tradicional sociedade secreta, embora não tivessem satãs amarrados pelo pescoço, eram cheias de mistérios e provações. Em uma dessas cerimônias, numa cidade próxima a São Paulo cujo nome me proibiram de revelar, um candidato a maçom, após muitos percalços, alcançou a última etapa do exame, que consistia em subir ao topo de uma escada com os olhos vendados.
Deixaram-no lá, sozinho, com a venda a cobrir-lhe os olhos, mal equilibrado (visto que era um tanto gordote), enquanto o examinador, com voz solene, lhe dirigia a questão: “O senhor seria capaz de, por fidelidade à maçonaria, atirar-se no abismo à sua frente?”. O vestibulando afirmou com voz firme que sim. E, antes que mais dúvidas colocassem em xeque sua lealdade à sagrada sociedade, atirou-se lá de cima, com seus noventa e poucos quilos, e caiu sobre o inquiridor, causando-lhe traumas, machucados e um constrangimento jamais visto.
Acontecimento ainda mais burlesco foi a cerimônia de iniciação de um comerciante na mesma loja maçônica. Durante essa fase do exame, saiu-se bem melhor ao declarar, do topo da escada, que confiava cegamente na maçonaria, porém sem a ideia de se jogar lá do alto para provar o que dizia. No entanto, logo após responder, o inquisidor ordenou: “Tirem-lhe a venda!”, frase que, mal compreendida, provocou o desespero do comerciante, que caiu de joelhos implorando: “Pelo amor de Deus, a venda não! Ela é meu único ganha-pão!”.
Dessa vez, a surpresa superou o constrangimento, e o que se ouviu foi uma grande gargalhada que estragou toda a formalidade do acontecimento. Ao ouvir as risadas dos presentes, ele, assim como eu no caso do Papai Noel, deve ter desconfiado de que algo estava errado. Diferentemente de mim, não pôde continuar com a fantasia, muito embora a ameaça que o havia aterrorizado fosse tão imaginária quanto o diabo de chifres e coleira berrando por trás dos muros do casarão de Xique-Xique.
Música do dia
*Guttemberg Nery Guarabyra Filho, ou Guttemberg Guarabyra, ou apenas Guarabyra, nascido em Barra, Vale do São Franscico, Interior da Bahia, cronista de ABCD REAL, músico, compositor, escritor e poeta brasileiro. Integrou por 53 anos a dupla Sá & Guarabyra. Entre seus maiores sucessos como compositor estão as canções “Mestre Jonas” e “Outra vez na estrada” (ambas em parceria com Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix), “Casaco Marrom” (com Renato Correa e Danilo Caymmi), “Sobradinho” (com Luiz Carlos Sá) , “Espanhola” (com Flávio Venturini), Dona e muito mais. Escreveu O Outro Lado do Mundo e Teatro dos Esquecidos, além de inúmeras crônicas.
