Por Clara Laface *
A rede americana de supermercados Kroger anunciou que pretende eliminar cerca de 3 mil cargos corporativos nos próximos três anos. A decisão faz parte de uma reorganização para reduzir custos e simplificar operações. Embora os cortes não sejam atribuídos exclusivamente à inteligência artificial, o caso chama atenção para uma mudança no mercado de trabalho. As empresas estão revendo não apenas quantas pessoas precisam contratar, mas também quais funções ainda fazem sentido em suas estruturas.
Durante décadas, as funções mais simples foram a porta de entrada para o desenvolvimento profissional. Era realizando tarefas operacionais que os iniciantes aprendiam uma profissão. Agora, parte dessas atividades pode ser automatizada. A empresa ganha produtividade, mas pode perder uma etapa fundamental na formação de seus futuros profissionais.
A experiência também entra nessa discussão. A tecnologia permite que profissionais menos experientes executem atividades que antes exigiam anos de prática. Isso não elimina o valor do conhecimento acumulado, mas muda a forma como ele pode ser aproveitado. Saber executar uma tarefa deixa de ser um diferencial quando a tecnologia consegue realizar boa parte dela. Por outro lado, lidar com situações variadas continuam sendo capacidades que não se desenvolvem apenas utilizando ferramentas.
Há ainda algo que merece atenção: reduzir equipes não significa necessariamente aumentar a eficiência. Uma empresa pode eliminar cargos e diminuir despesas, mas também perder profissionais que conhecem profundamente sua operação. Parte desse conhecimento está na experiência de quem sabe por que determinados processos funcionam, onde estão os problemas e como resolvê-los. Quando essas pessoas saem, o custo da perda nem sempre aparece imediatamente nos resultados.
Os efeitos também podem alcançar a classe média profissional. Durante décadas, cargos administrativos e técnicos ofereceram estabilidade e possibilidades de crescimento. Se essas oportunidades diminuírem, a concorrência por vagas tende a aumentar. E não estamos falando apenas de desemprego, mas da possibilidade de profissionais qualificados encontrarem menos espaço para aplicar aquilo que sabem.
É por isso que a recomendação de simplesmente aprender inteligência artificial me parece insuficiente. Dominar novas ferramentas ajuda, mas não impede que uma função perca espaço no mercado. A adaptação exige uma discussão maior sobre formação, reorganização das empresas e criação de oportunidades. Não é razoável transferir toda essa responsabilidade para o indivíduo.
A tecnologia pode melhorar a produtividade e criar ocupações. O desafio não é apenas preparar pessoas para trabalhar com novas tecnologias, mas entender que tipo de mercado de trabalho estamos construindo com elas.
Sobre Clara Laface
Especialista em Posicionamento Profissional. Graduada em Marketing, com pós-graduação em Comunicação Estratégica e Gestão de Crise pela FAAP e em Imagem e Marca Pessoal pela PUC-Campinas. É também formada em Consultoria de Imagem pelo EnModa – Escola de Negócios da Moda.
Foi VP de Marketing da AICI Brasil entre 2022 e 2024. Atualmente, é Editora de Negócios da AICI Global Magazine, colunista dos portais Be News, ABC do ABC e ABCD Real e docente na Comunica Escola de Comunicação e Imagem. É também coautora dos livros Encontre sua Marca Volume 7 e A Linguagem da Imagem Pessoal.
