Por Clara Laface*
O executivo John Ternus vai assumiu a cadeira de Tim Cook na Apple. Essa situação traz à tona o peso de herdar um legado gigante. Assumir o comando de uma empresa que beira os quatro trilhões de dólares é um grande desafio. Quando você se senta no lugar de alguém que entregou resultados absurdos, a expectativa não começa do zero. É o famoso cenário onde o sarrafo já está alto demais antes mesmo do seu primeiro dia de trabalho.
Tim Cook sabe exatamente como é essa sensação, afinal, ele viveu na pele a pressão de substituir ninguém menos que Steve Jobs. Por muito tempo, ele teve que lidar com a sombra de um gênio que se confundia com a própria identidade da marca. Só que, em vez de tentar ser um “novo Jobs”, Cook jogou o próprio jogo e multiplicou o tamanho da empresa com suas habilidades. Aos poucos, ele deixou de ser o cara que substituiu o fundador para se tornar o líder que construiu a sua própria era de ouro na tecnologia.
O grande paradoxo de pegar a casa arrumada é que fica muito mais complexo provar o seu valor real. Se a Apple continuar de vento em popa, não vai faltar gente dizendo que o Ternus só pegou carona no sucesso que já estava pronto. Agora, se os números caírem um pouco que seja, a culpa vai cair toda no colo da nova gestão em tempo recorde. Ou seja, ter um antecessor de peso é um verdadeiro teste de nervos para quem está assumindo o leme.
Saindo do universo do Vale do Silício, a gente vê essa mesma novela acontecer todos os dias em empresas de qualquer tamanho. Pode ser aquele gerente novato que assume a equipe de um líder super amado, ou o executivo que herda a carteira de clientes de alguém que construiu relações por décadas. O crachá muda de dono num piscar de olhos, mas a memória de quem estava lá antes continua muito viva na cabeça da equipe.
Nessa hora de nervosismo, é super comum bater a insegurança e a pessoa cometer dois erros clássicos. O primeiro é tentar imitar o estilo de quem saiu, como se a mágica estivesse no comportamento do outro. O segundo é querer revolucionar e mudar tudo de cara, só para marcar território e mostrar quem manda agora. Nenhuma dessas saídas funciona direito, porque liderar de verdade exige leitura de ambiente para entender o que ainda faz sentido manter e o que já passou da hora de mudar.
A promoção para um cargo importante se resolve em um dia, mas o respeito das pessoas demora um bom tempo para aparecer. John Ternus ganhou uma estrutura incrível, uma marca que vende sozinha e um mapa da mina deixado por Tim Cook. Mas a grande sacada de qualquer sucessão é que você pode herdar absolutamente tudo da empresa, menos a reputação do seu antecessor. Essa não tem atalho: você vai ter que suar a camisa e construir do zero com as suas próprias atitudes.
Sobre Clara Laface
Consultora em posicionamento de marca pessoal, apoia líderes, executivos, empresários e profissionais em fases de crescimento, reposicionamento ou recolocação no mercado.
No ambiente corporativo, atua em comunicação interna e gestão de crise, com foco no alinhamento de mensagens, fortalecimento da cultura e engajamento de equipes. Ministra treinamentos e palestras sobre posicionamento profissional e comunicação. Foi VP de Marketing da AICI Brasil (2022–2024), é colunista do Portal Be News e docente na Comunica Escola de Comunicação e Imagem.
