Por Marli Gonçalves*
Está chato demais. Ultimamente, parece que o mundo todo se dividiu em dois, apenas dois, um a favor, outro contra. Qualquer pesquisa – e de muitos e variados assuntos – tem demonstrado isso, metade de um lado, metade de outro, o tal fifty/fifty.
Quando não é assim, é quase. O quase empate. O que sobra são pequenos percentuais, e que também parecem ir na mesma direção, ou de não ter opinião, não saber, muito menos querer se comprometer com alguma opção nova. Os números de lado a lado parecem sempre ser metades. E a gente fica por aí se esgoelando pela diversidade. O mundo anda querendo, mas parece mesmo que é tudo preto no branco. Ou branco no preto? Polêmica!
Estamos no momento que tudo vira polêmica, e que o simples discordar está na moda, mesmo que sem muita sinceridade. Vira a provocação, para causar. A cutucada. O diferencial. O alongamento de alguma conversa. Você diz uma coisa (qualquer coisa), o interlocutor reage – parece aquele grupo de samba, “só para contrariar”. Quem tem redes sociais ou faz parte de algum grupo de conversas vai admitir isso 100%. Ou não.
Lembro muito de uma propaganda antiga famosa, creio que era de uma marca de tintas, que usou a expressão “o que seria do amarelo, se todos gostassem do azul?”, ou coisa parecida, talvez invertida, que é do tempo do onça e a memória da gente gasta, com tantas coisas na cabeça, igualzinho a memória dos equipamentos eletrônicos, e se até ela abarrota. Mas quase certeza que eram essas as cores do tal anúncio. Tadinho do vermelho, do verde. O rosinha, o lilás (ou violeta, antes que alguém queira brigar comigo por conta das cores, pró ou contra o arco-íris). Tem as cores primárias, o vermelho, o amarelo, o azul. Delas advêm as secundárias, quando uma junta com a outra, azul e amarelo, o verde; o laranja, amarelo e vermelho; o roxo, o vermelho e o azul.
Quantas variações maravilhosas como essas, em tonalidades diversas, perdemos nessa coisa que só divide, entre isso e aquilo. Entre um e outro. No nosso caso mais lamentável, o país, visível e tristemente na política. Se bem que admito que já faz muito tempo que as paletas que nos são apresentadas não são mesmo nem de longe as mais emocionantes. O branco fica ali por perto, rondando nossa indecisão, soma de todas as cores da luz; o preto, pensando bem em como todas as primárias se juntam, viram a ausência da luz. Assim anda o voto. Inclusive. Cinza. Triste.
Sim ou não acabam com o talvez. Fica tudo estanque. A favor ou contra. Parece aquelas provas de marcar X nas questões, mas sem uma das possibilidades que sempre gostava de poder escolher como certa: “Nenhuma das opções anteriores”.
MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, com passagens por alguns dos principais veículos, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
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