Resiliência climática: a importância de se transformar dados em capacidade de resposta para a proteção de vidas

In ABCD, Artigo On
Paulo Serra

Paulo Serra*

Durante muito tempo, as discussões sobre mudanças climáticas ficaram restritas ao meio acadêmico, aos organismos internacionais e aos grandes fóruns globais. Hoje, tal realidade bate à porta de cada cidade, de cada gestor público e de cada cidadão. As mudanças no clima deixaram de ser previsão distante para se tornarem desafio concreto do presente – um assunto não só acadêmico e governamental; um tema de todos nós.

Os alertas da comunidade científica são cada vez mais contundentes. As previsões indicam, por exemplo, a possibilidade de um dos fenômenos El Niño mais intensos já registrados na história da humanidade. No Brasil, seus efeitos costumam ser extremos. Em algumas localidades, provoca ondas de calor severas, estiagens prolongadas e crises hídricas. Em outras, gera chuvas intensas, enchentes e desastres ambientais.

Em 2024, vale recordar, as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul deixaram um rastro de destruição, interromperam atividades econômicas, afetaram milhares de famílias e demonstraram como os eventos climáticos extremos podem impactar profundamente a vida das pessoas.

Diante deste cenário, uma conclusão é inevitável: a questão climática precisa deixar de ser tratada apenas como tema ambiental para ser encarada como política pública permanente. A grande pergunta, portanto, já não é mais se eventos extremos acontecerão. A questão é: estamos preparados para enfrentá-los?

A resposta exige planejamento, investimento e, sobretudo, capacidade de antecipação. O poder público precisa evoluir de uma lógica puramente reativa para uma cultura de prevenção. Cada real investido em resguardo representa economia de recursos, preservação de patrimônio e, principalmente, proteção de vidas.

Foi exatamente com esta visão que Santo André-SP deu início, em 2019, sob a minha gestão, a um importante processo de transformação, após as fortes chuvas que atingiram toda a região do Grande ABC paulista, naquele ano. Foi instituído, então, o Centro de Gerenciamento e Resiliência Climática – estrutura moderna que abarca monitoramento em tempo real, Inteligência Artificial (IA), sistemas integrados de informação e uma rede de 26 estações meteorológicas distribuídas por todo o município.

O objetivo é simples, mas poderoso: transformar dados em capacidade de resposta. Quanto maior a previsibilidade, superior é a possibilidade de se prevenir danos, de orientar a população e de mobilizar equipes antes que as ocorrências se agravem.

Esta experiência transformou Santo André em referência nacional em resiliência urbana. Mais do que uma obra ou um equipamento, trata-se de uma nova forma de governar, baseada em informação, Tecnologia e tomada de decisão rápida.

Não tenho dúvidas de que as cidades do Brasil e do mundo serão cada vez mais protagonistas no enfrentamento das mudanças climáticas. E, aquelas que conseguirem combinar planejamento, inovação e efetividade estarão mais preparadas para proteger seus cidadãos.

Mais do que discutir as alterações do clima, precisamos aprender a conviver com elas. E, isto exige ação, investimento e políticas públicas inteligentes, estruturantes, estratégicas e contínuas. Afinal, prevenção deixou, há muito tempo, de ser escolha – é obrigação.

*Paulo Serra é especialista em Gestão Governamental e em Políticas Públicas, pela Escola Paulista de Direito; e em Financiamento de Infraestrutura, Regulação e Gestão de Parcerias Público-Privadas (PPPs), pela Universidade de Harvard (Estados Unidos); cursou Economia, na Universidade de São Paulo (USP); é graduado em Direito, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo-SP; professor universitário no curso de Direito, também é 1º vice-presidente da Executiva Nacional do PSDB e presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo; foi prefeito de Santo André-SP, de 2017 a 2024.

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