Por Guttemberg Guarabyra*
Primeiro, observei como os banhistas experientes agiam para atravessar as ondas e nadar depois da arrebentação. O macete era mergulhar por baixo da onda que vinha, deixar que ela lhe passasse por cima e impulsionar o nado para diante. Visto isso, resolvi eu mesmo tentar a travessia.
Afastei-me discretamente do grupo que curtia a praia comigo, aproximei-me da água e, assim que uma onda começou a crescer para quebrar, calculei o momento em que deveria me jogar por baixo dela, iniciei a corrida… e mergulhei.
Assustei-me com a força e o volume da água, mas mantive-me firme, nadando com vigor até emergir do outro lado. Um feito e tanto para quem não tinha nenhuma experiência de nado no mar — tão diferente dos banhos nos rios do sertão, mesmo naqueles, como o Das Éguas, em Correntina, cacheado de corredeiras e corrente brava.
O subir e descer da maré me metia medo, mas, ao mesmo tempo, incutia em mim um sabor de vitória.
O passeio estava bom, porém achei prudente voltar logo à segurança da praia. E foi aí que as coisas começaram a dar errado.
Pensei que bastava nadar de volta, em linha reta, no sentido da areia, onde via ao longe o grupo de amigos, do qual havia me afastado, reunido sob o guarda-sol.
Nada disso. Quanto mais nadava para a frente, mais o mar, depois de alguns metros, me trazia de volta. Sei lá quantas vezes tentei. De nada adiantava. Mantinha-me no mesmo ponto — talvez até mais afastado. Uma mistura de cansaço e desespero começou a se apoderar de mim.
Observei que, lá da praia, um dos amigos se desgrudou do grupo e levantou um dos braços, como a chamar minha atenção. No ir e vir das ondas, ora ele desaparecia, ora surgia de novo, mas entendi que falava comigo.
Ao notar que eu o havia visto, iniciou, por gestos, uma série de instruções. Lições de sobrevivência à distância. Indicava que eu nadasse não diretamente em direção à praia, mas costeando-a, nadando para o lado. Fui seguindo as instruções, enquanto ele me acompanhava da areia, sempre gesticulando para que eu continuasse assim e tentasse me aproximar daquela forma.
Para encurtar a história, deu certo. Em algum momento mágico, vi-me na crista de uma onda, sendo levado por um “jacaré” até a sagrada terra firme da minha salvação.
Aquele amigo havia me salvado a vida, com uma ajuda anônima e solidária.
Por toda a minha vida lembrei desse fato e, secretamente, o agradeci inúmeras vezes. E hoje agradeço de novo, imensamente. Obrigado, Guto Graça Mello. Ironicamente, você partiu neste 05 de maio de 2026, antes de mim, cuja vida salvou. Coisas da vida. Guarde meu lugar à sua mesa aí em cima, quando certamente voltaremos a cantar juntos, como naquela época (nós dois aos 19 anos) em que me salvou e fazíamos parte do mesmo grupo vocal. Obrigado mesmo.
*Guttemberg Nery Guarabyra Filho, ou Guttemberg Guarabyra, ou apenas Guarabyra, nascido em Barra, Vale do São Franscico, Interior da Bahia, cronista de ABCD REAL, músico, compositor, escritor e poeta brasileiro. Integrou por 53 anos a dupla Sá & Guarabyra. Entre seus maiores sucessos como compositor estão as canções “Mestre Jonas” e “Outra vez na estrada” (ambas em parceria com Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix), “Casaco Marrom” (com Renato Correa e Danilo Caymmi), “Sobradinho” (com Luiz Carlos Sá) , “Espanhola” (com Flávio Venturini), Dona e muito mais. Escreveu O Outro Lado do Mundo e Teatro dos Esquecidos, além de inúmeras crônicas.