Enfermagem se reinventa na era da inteligência artificial sem abrir mão do cuidado humano

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Maria Elisa Ravaganani Gonçalves Ramos

Por Maria Elisa Ravaganani Gonçalves Ramos, professora de enfermagem*

A incorporação da inteligência artificial (IA) na saúde deixou de ser uma promessa futurista e passou a influenciar diretamente a prática clínica. Sistemas capazes de analisar exames, prever riscos clínicos e organizar fluxos hospitalares já fazem parte da rotina de hospitais e clínicas. Nesse cenário, o papel do profissional de enfermagem não diminui, ele se transformou. A presença crescente da tecnologia exige um perfil mais analítico, tecnicamente preparado e estrategicamente ativo, sem que o cuidado humano, que sustenta a essência da profissão, seja substituído por algoritmos.

Esse movimento acompanha a rápida digitalização do setor de saúde em todo o mundo. De acordo com a consultoria McKinsey, tecnologias digitais e inteligência artificial podem gerar até US$ 370 bilhões por ano em ganhos de produtividade no setor de saúde global. No Brasil, essa transformação também avança. Segundo a Sociedade Brasileira de Informática em Saúde, mais de 70% dos hospitais brasileiros já utilizam prontuário eletrônico em algum nível. Esses sistemas ampliam a capacidade de análise de dados clínicos e ajudam na identificação precoce de riscos ao paciente. Nesse ambiente cada vez mais orientado por dados, o enfermeiro passa a desempenhar um papel central na interpretação crítica dessas informações e na aplicação prática dentro da assistência.

Ao mesmo tempo, o cenário estrutural da profissão evidencia a importância estratégica da enfermagem. O relatório State of the World’s Nursing, publicado pela Organização Mundial da Saúde, estima que o mundo possui cerca de 28 milhões de profissionais de enfermagem, responsáveis por mais da metade da força de trabalho em saúde. No Brasil, segundo dados do Conselho Federal de Enfermagem, são mais de 2,8 milhões de profissionais em atividade. Trata-se de uma força de trabalho decisiva para a sustentabilidade dos sistemas de saúde, especialmente em um contexto de envelhecimento populacional e aumento das doenças crônicas, fatores que ampliam a complexidade do cuidado.

A presença da IA nesse ambiente não elimina o julgamento clínico humano. Pelo contrário, torna-o ainda mais necessário. Sistemas preditivos podem indicar risco de deterioração clínica ou sugerir protocolos assistenciais, mas a decisão final depende da avaliação contextual do profissional. O cuidado em saúde envolve dimensões que não cabem integralmente em bases de dados. Aspectos emocionais, culturais, familiares e sociais influenciam diretamente a adesão ao tratamento e a recuperação do paciente. A enfermagem atua exatamente nesse ponto em que ciência e relação humana se encontram.

Longe de representar uma substituição do trabalho humano, a inteligência artificial reforça a necessidade de profissionais cada vez mais qualificados para interpretar, validar e aplicar as informações geradas pelos sistemas digitais. Estudos publicados no periódico The Lancet Digital Health indicam que ferramentas de IA alcançam melhores resultados quando utilizadas em conjunto com profissionais de saúde, combinando capacidade analítica tecnológica com julgamento clínico humano.

Sendo assim, a tecnologia não reduz o papel da enfermagem, mas eleva o nível de responsabilidade profissional, uma vez que decisões clínicas passam a ser influenciadas por algoritmos que precisam ser interpretados, questionados e contextualizados pelo enfermeiro, tornando a qualificação contínua condição essencial para garantir segurança assistencial e cuidado humanizado.

Portanto, o desafio central deixa de ser a substituição do trabalho humano e passa a ser a qualificação profissional. A formação em enfermagem precisa incorporar competências relacionadas à saúde digital, análise de dados clínicos e ética no uso de tecnologias. O profissional que compreende o funcionamento dessas ferramentas consegue utilizá-las de forma crítica e estratégica. A inteligência artificial tende a se consolidar como aliada do cuidado, mas é a enfermagem que continuará garantindo que a inovação tecnológica esteja a serviço da vida, da segurança do paciente e da humanização da assistência.

*Maria Elisa Ravaganani Gonçalves Ramos é professora de enfermagem com mais de 30 anos de experiência e coordenadora do Curso de Enfermagem da FASIG (Faculdade de Ciências da Saúde IGESP).

Maria Elisa Ravaganani Gonçalves Ramos/Divulgação

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